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    Oito dias entre a folia e a cultura: um percurso pelo Carnaval e além

    10 de março de 2025

    Crônica Décio Barros

     

    A semana de 2 a 9 de março foi marcada pelo Carnaval, um evento que une diversas expressões artísticas e movimenta o turismo em Cabo Verde. Nessa mesma semana, o Governo de Cabo Verde anunciou que o país recebeu 1,2 milhões de turistas em 2024, um recorde histórico.

     

    Ao longo desses dias, embarcamos em um percurso cultural e turístico que nos levou a vivenciar momentos inesquecíveis de um domingo a outro domingo.

     

    1º Dia
    Iniciamos nosso percurso na cidade do Mindelo, palco de um dos maiores espetáculos de Cabo Verde – o Carnaval de São Vicente. Na tarde de domingo, assistimos ao desfile dos Mandingas, que tradicionalmente abrem e fecham o ciclo da folia. Esse desfile já se consolidou como uma das  atrações turísticas do Carnaval da ilha.

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    2º Dia
    Na segunda-feira, 3 de março, o destaque foi o desfile da Escola de Samba Tropical, que acontece sempre na noite anterior à terça-feira de Carnaval.

     

    Antes do desfile, aproveitamos para visitar a localidade de São Pedro, onde nadamos com tartarugas – uma experiência imperdível para quem visita São Vicente.

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    No fim da tarde, seguimos para o Miradouro Cruz João Évora, de onde se pode admirar uma vista panorâmica da cidade do Mindelo, da baía, do Monte Cara e da ilha de Santo Antão ao fundo. O pôr do sol foi simplesmente mágico, com um jogo de cores fascinante e indescritível.

     

    À noite a Escola de Samba Tropical apresentou o enredo “A Apoteose do Carnaval do Mindelo. Sete Ruas, Uma História”, um tributo à maior festa da cidade. O desfile homenageou o circuito do Carnaval e suas oito ruas, além de retratar momentos marcantes e figuras icônicas. Com mais de 1.200 foliões, a escola encantou com animação, cores, glamour e emoção, atraindo turistas tanto para integrar as alas quanto para assistir nas bancadas.

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    3º Dia
    Na terça-feira, 4 de março, chegou o grande dia dos desfiles competitivos dos grupos oficiais do Carnaval de São Vicente. Esse é o maior evento cultural e turístico da ilha, contando com ampla cobertura mediática. O Carnaval envolve empresas de todos os portes e diversas áreas artísticas e criativas, como música, dança, design, artesanato, artes plásticas, fotografia e produção audiovisual - movimentando toda a economia da ilha. Podia, aqui, escrever milhares de palavras para descrever o evento. Como dizem, "imagens valem mais que mil palavras", e nós tivemos o privilégio de acompanhar tudo da primeira fila. Das sete edições do Carnaval de São Vicente que já presenciei, essa foi, sem dúvida, a mais espetacular.

     

     

    4º Dia
    Quarta-feira foi o dia dos anúncios e da entrega dos prêmios. São nove categorias e 12 prêmios individuais, avaliados por um júri de 29 especialistas, incluindo artistas, professores, arquitetos e designers.

     

    O evento aconteceu às 16h00, momento em que a luz suave do sol realçava a beleza dos foliões e seus trajes criativos. Foi um instante de grande carga emocional, marcado por sorrisos, fotografias e entrevistas para a televisão. Afinal, era a celebração do esforço de meses de preparação. Mais uma vez, as "imagens valem mais que mil palavras".

     

    5º Dia
    Na quinta-feira, seguimos viagem de São Vicente para Santo Antão, duas ilhas vizinhas separadas por 50 minutos de ferry boat. Fomos diretamente à aldeia de Fontaínhas, que foi elevada a Patrimônio Cultural e Natural Nacional em agosto de 2024. O percurso para caminhadas entre Ponta do Sol, Fontaínhas, Corvo, Formiguinhas, Aranhas e Cruzinhas é um dos mais procurados pelos turistas amantes do trekking. Fontaínhas, uma aldeia-presépio, é um verdadeiro "cartão-postal".

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    A trilha até a aldeia dura cerca de 25 minutos (partindo da cidade de Ponta do Sol), mas eu levei mais de uma hora e meia, pois fiz questão de apreciar cada detalhe desse caminho vertiginoso, que corta as montanhas. Ao avistar Fontaínhas, a vista cênica faz qualquer esforço valer a pena. A National Geographic classificou essa paisagem como uma das aldeia com vista das mais bonitas do mundo.

     

    Em Fontaínhas, saboreamos uma deliciosa cachupa refogada com ovo e linguiça e conversamos com os moradores, a maioria idosos, já que a aldeia tem vindo a perder sua população jovem ao longo dos anos.

     

    No fim da tarde, seguimos para Ponta do Sol, o ponto mais ao norte de Cabo Verde, para assistir a um dos pores do sol mais incríveis que já vi – entrou para o meu top 5 de melhores spots para apreciar esse espetáculo da natureza.

    pordosol_pontadosol.jpgAo retornar a Fontaínhas, encontramos uma jovem moradora e aproveitei para perguntar sobre sua infância e adolescência na aldeia. Dormimos na pousada "Anjo da Paz", onde o silêncio absoluto e o cansaço acumulado nos proporcionaram um sono tranquilo.

     

    6º Dia
    Na sexta-feira, 7 de março, começamos o dia com um café da manhã reforçado: suco de papaia, cachupa refogada, cuscuz de milho e café. Com energia renovada, fizemos uma pequena caminhada até a aldeia de Corvo. No alto da montanha entre as Fontaínhas e o Corvo, a vista era deslumbrante – de um lado, a cidade de Ponta do Sol, do outro, os caminhos serpenteando até Corvo. A caminhada terminou às 11h, e aproveitamos para conversar com os habitantes locais sobre suas histórias de vida. Alguns dedicaram toda a juventude a trabalhar em barcos cargueiros pelos mares do mundo, de Japão, África do Sul, EUA, América do Sul e Norte, Europa.

     

    À tarde, retornamos a São Vicente e fomos explorar a vida cultural de Mindelo. No espaço "Bombu Mininu", um café cultural e museu etnográfico gerido pelo ativista cultural António Tavares, tivemos uma longa conversa. Depois, seguimos para o "Le Metalo", onde ouvimos a doce voz de Tutu Silva em uma típica noite cabo-verdiana. A poucos metros dali, no espaço "Jazzy Bird", assistimos à apresentação de Bau, um dos grandes nomes da música de Cabo Verde.

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    7º Dia
    Na manhã de sábado, fizemos um passeio descontraído pelo centro de Mindelo para sentir o pulsar da cidade. Passamos pela Avenida Marginal, Sede do Mindelense (o clube de futebol mais vitorioso de Cabo Verde), Museu do Mar, Centro Cultural do Mindelo e CNAD (Centro Nacional de Arte e Design), um edifício fabuloso repleto de conteúdos artísticos.

     

    Almoçamos, na zona de Alto Solerino, no espaço "Abissínia", uma mercearia tradicional e café cultural, onde saboreamos uma deliciosa "cachupa d’lenha", servida apenas aos sábados.

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    À tarde, seguimos viagem de regresso à Santiago. Mas antes, paramos na ilha do Sal, onde fizemos uma escala de 10 horas antes de retornar à cidade da Praia. Aproveitamos para apreciar uma noite cabo-verdiana, na cidade dos Espargos, na Esplanada "Ferreira e Brito" onde tocava música ao vivo. Lá, apreciamos a performance de Djila Lobo, um talentoso intérprete de morna, coladeira e funaná. 

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    8º Dia
    No domingo, 9 de março, retornamos à cidade da Praia. Após um merecido descanso, encerramos nosso percurso assistindo ao pôr do sol no "Porton di Nos Ilha" na Fortaleza de São Filipe, no alto da Cidade Velha, outro dos meus top 5 sunset spots. Ainda houve tempo para saborear uma moreia frita e uma cerveja crioula "Strela", à beira-mar, no centro da Cidade Velha, Patrimônio da Humanidade.

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    Foi uma semana intensa e repleta de experiências inesquecíveis!