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    Viagem pelas ilhas às custas do "Homem Grande"

    20 de janeiro de 2026

    Crónica de Benvindo Neves

     

    No dia dos Heróis Nacionais, feriado que coincide com a data do assassinato de Amílcar Cabral, a 20 de janeiro de 1973, proponho uma viagem por vários sítios, à boleia de “Homem Grande”. Este epíteto não é meu, está no título de um dos romances de Mário Lúcio Sousa - A Última Lua do Homem Grande - obra na qual o escritor do Tarrafal de Santiago homenageia Amílcar Cabral.

     

    Neste breve passeio às custas de Cabral vamos estar, simultaneamente, em diferentes locais do país e, para que não haja confusões, digo que andaremos à procura dele, dos sinais dele, por estas ilhas.

     

    Um pouco por todo o Cabo Verde encontramos uma fatia bastante generosa de locais com nomes que nos remetem para outras paragens. Lisboa em “Avenida Cidade de Lisboa”, na Praia; Rua de Lisboa, em São Vicente; Praia de Lisboa em Santo Antão; Holanda em “Avenida d’Holanda”, São Vicente; Luxemburgo em “Avenida do Luxemburgo”, Ribeira Grande de Santo Antão e… por aí fora.

     

    Muitas das nossas estatuas e bustos também homenageiam gente que não é produto destas terras estorricadas.  Tudo isso é verdade, mas há, pelo menos, um filho destas ilhas que, embora não tenha nascido aqui, pode dar-se ao luxo de bater com as mãos no peito e gabar-se da sua presença marcante em muitos locais deste país, espaços que se destacam seja pela sua grandeza, seja pelo seu prestígio ou simbolismo no contexto local, regional ou nacional.

     

    Ilha do Sal. É lá que se situa o maior aeroporto de Cabo Verde. Foi, durante algum tempo, a única porta de entrada e saída de Cabo Verde por via aérea. Toda a pulsação do Sal começa aí no Aeroporto Internacional Amílcar Cabral. As 35 letras que dão forma ao letreiro destacam-se no topo da fachada principal do edifício. Letras garrafais, em tons de azul forte.
    Mas, quem chega ou está a passar por perto vê mais Cabral. Logo nos belos jardins que embelezam o entorno frontal do edifício ergue uma estátua sorridente do herói nacional. Cabral está lá de corpo inteiro, dando sempre as boas vindas a quem chega, e a desejar boa viagem a quem parte.

     

    Voamos de Espargos para a Praia.  Fomos ao Centro Histórico da capital cabo-verdiana. No Plateau estica-se uma das avenidas mais movimentadas de todo o país: a Avenida Amílcar Cabral, o coração do Plateau. É a rua das instituições, do mercado, das lojas e boutiques. É a avenida dos autocarros e, logo, do constante sobe e desce de passageiros a partir ou a chegar dos diferentes bairros da cidade.

     

    Não há tempo a perder. Deixamos a Avenida Amílcar Cabral pela rampa da Fazenda e já temos rosto apontado para o interior da ilha.

     

    Vamos parar em Santa Catarina, por sinal, terra das origens de Cabral. Na cidade capital da região norte da ilha, Assomada, já relativamente perto da Achada Falcão onde o filho do senhor Juvenal chegou a viver, ergue-se um dos maiores liceus de Cabo Verde. E é liceu Amílcar Cabral. Por lá estudou muita gente ilustre deste país.

     

    De Santiago, um breve saltinho até a vizinha ilha do Maio. Por mar ou por terra, é Porto Inglês que nos acolhe. A única cidade de Djarmai tem Amílcar a dar nome à sua maior avenida. Ali sobranceira à praia de Bixi Rotcha, e na Avenida Amílcar Cabral que ta morrê pexe, é para ali que tudo se conflui, vindo do norte ou do sul da ilha.

     

    Nesta viagem às custas de Cabral incluímos, também, uma voltinha numa praça. Escolhemos uma bem emblemática, no centro da cidade do Mindelo. A “Praça Nova” é nome dado pelo povo a uma das mais famosas praças destas ilhas, que tem como nome de batismo “Praça Amílcar Cabral”.

     

    E podíamos continuar esta aventura por muito tempo, andando de ilha em ilha, que encontraríamos Cabral aqui e acolá: em avenidas, ruas e travessas, em praças e pracetas, em infraestruturas ou, simplesmente, em pequenos espaços recreativos e/ou culturais. Como é o caso, por exemplo, da pacata comunidade de João Galego, no norte da Boa Vista, onde sobressai uma pequena casinha, de cores bem garridas, com um letreiro bem destacado onde se lê: “Centro Cultural Amílcar Cabral.”

     

    Já no finalzinho desta viagem com Cabral, regressamos à Praia, para fazemos vénia à sumptuosa estátua na zona baixa da cidade, na Várzea. Cabral está lá, altivo, de casacão, e com livros debaixo dos braços, ou não estivesse mesmo ao lado de uma biblioteca, a maior do país. 


    Só que, como notou Mário Lúcio na canção “Diogo e Cabral” (álbum Badyo, 2007), ele, Cabral, tem cara virada para o cemitério (da Várzea) enquanto num patamar bem mais alto, lá em cima, no Plateau, mesmo ao lado do Palácio da Presidência, ergue-se, vaidoso, o descobridor (ou achador) Diogo Gomes, com rosto bem mirado para o… Parlamento!