Faz hoje 76 anos que Cabo Verde viveu uma das maiores tragédias da sua história: o chamado "Desastre da Assistência". Motivo para conversamos com a realizadora e produtora Artemisa Ferreira, autora do documentário "Os 40’s – Depoimentos que Ficaram", uma longa-metragem de 90 minutos que, por meio de testemunhos, retrata as calamidades das fomes que assolaram Cabo Verde nos anos 40, dizimando milhares de pessoas.
A obra cinematográfica apresenta relatos de sobreviventes que enfrentaram a fome extrema, um dos momentos mais trágicos das fomes cíclicas no arquipélago. Além disso, inclui depoimentos de pessoas que ajudaram outros a sobreviver e de estudiosos/investigadores de diversas áreas, como história e geografia, que contextualizam esse período sombrio da história cabo-verdiana. No total, foram recolhidos cerca de 70 testemunhos, dos quais 21 estão presentes no filme, abrangendo praticamente todas as ilhas do país.
O documentário tem o seu clímax, o chamado "Desastre de Assistência", uma das maiores tragédias registradas em Cabo Verde. O desastre ocorreu em 20 de fevereiro de 1949, quando um paredão de aproximadamente sete metros de altura e 30 metros de comprimento desabou sobre uma multidão faminta, reunida junto aos Serviços Cabo-Verdianos de Assistência, na cidade da Praia, à espera de alimentos, principalmente milho. O desastre resultou na morte de 232 pessoas e deixou 47 feridos. O filme inclui testemunhos de indivíduos que estiveram no local e ajudaram a resgatar as vítimas soterradas.
Durante o processo de pesquisa para o documentário, Artemisa Ferreira encontrou dificuldades em acessar documentação sobre a fome dos anos 40 e o "Desastre de Assistência". Apesar da existência de algumas referências, a realizadora considera que, por se tratar de um acontecimento recente da história do país, deveria haver mais registros documentais. "São muito poucos os autores que abordam esse tema", ressalta.
Com “Os 40's – Depoimentos que ficaram”, Artemisa Ferreira quis contribuir para a preservação da história cabo-verdiana, reunindo relatos de quem viveu esse período e complementando com explicações de especialistas sobre as secas cíclicas que afetam Cabo Verde devido à sua localização geográfica. O documentário também explora aspectos sociais e humanos relacionados às dificuldades enfrentadas pela população.
Desde sua estreia na cidade da Praia em 2022, o documentário foi exibido em Assomada e prepara-se para ser apresentado na ilha do Maio. Internacionalmente, já foi apresentado em Portugal, Canárias, Grécia (onde recebeu uma Menção Honrosa em um festival) e no Brasil.
Produzido sem financiamento externo, o documentário foi viabilizado com recursos próprios de Artemisa Ferreira, que criou sua produtora, Ceiba Produções. Questionada sobre a possibilidade de continuidade do projeto, a cineasta afirma que, devido ao elevado custo em termos de tempo e recursos, uma sequência só seria viável através de um acordo televisivo, para uma versão adaptada à televisão.
Artemisa Ferreira defende a criação de espaços dedicados à memória das fomes em Cabo Verde, como forma de prevenir futuras crises alimentares. Segundo ela, a falta de chuvas continua a afetar o arquipélago, trazendo graves consequências sociais.
Nos anos 40, Cabo Verde atravessou um longo período de seca, e somente em 1950 houve chuvas suficientes para garantir uma produção agrícola significativa.
Natural de Boa Entrada, em Santa Catarina de Santiago, Artemisa Ferreira é licenciada em Tecnologias de Informação e Comunicação pela Universidade Católica de Braga e Mestre em Realização, Cinema e Televisão pela Escola Superior Artística do Porto, Portugal. Após concluir sua formação acadêmica, trabalhou durante um ano como produtora e realizadora em uma empresa audiovisual e, posteriormente, ingressou no ensino superior, onde é docente universitária há 10 anos. Paralelamente, desenvolve projetos em sua produtora.
Em 2017, fez realização e guião de “Oji” (“Hoje”, em português) [ver no YouTube], uma doc-ficção de um minuto que aborda o impacto das tecnologias nas relações familiares. O filme, realizado no âmbito de um festival nos Estados Unidos, conquistou o Prémio Revelação no Festival de Cinema da Praia - Plateau e o prémio de Melhor Montagem na I Mostra Competitiva do Cinema Negro Adélia Sampaio, no Brasil.
Durante seu mestrado, realizou um documentário, "Identidade Repartida", sobre a identidade de descendentes de cabo-verdianos em Portugal.
Além do cinema, Artemisa Ferreira também se aventurou na literatura. Em 2009, estreouna escrita de livro com "Desejo". E em 2017, lançou o livro “A Gruta Abençoada”, uma obra de poesia [Mais info sobre o livro].
DB