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    Di Txada Fazenda pa Mundu? Porque não?

    8 de agosto de 2026

    Crónica de Benvindo Neves

     

    Melhor jogadora do Campeonato Nacional, MVP da final, melhor marcadora ex aequo com uma colega. Lauziane "Ló" Varela quer chegar à Seleção Nacional.

     

    No dia em que Cabo Verde se despediu da Copa Africana das Nações de futebol feminino com um empate, pus-me a pensar no trajeto extraordinário de uma seleção que, em escassos oito anos, chegou à sala de espetáculos onde só atuam as melhores do continente.

     

    De facto, se pensarmos que o primeiro jogo de sempre do combinado cabo-verdiano só aconteceu em 2018, então concluímos que as meninas deram um pulo gigante em tempo recorde.

     

    É uma evolução que, de certeza, põe muitas adolescentes e jovens jogadoras das ilhas a sonhar. A sonhar com campeonatos regionais e nacionais, com troféus, contratos, seleção, CAN e até Mundial. Sim, os tubarões masculinos mostraram, ainda há dias, que a Copa do Mundo deixou de ser miragem.

     

    Uma das jogadoras que a esta altura deverá estar a sonhar, todos os dias, com a seleção nacional é uma jovem natural de Achada Fazenda, no município de Santa Cruz, ilha de Santiago.


    Chama-se Lauziane Varela, tem 23 anos, e foi a figura de maior destaque na mais recente edição do campeonato nacional de futebol feminino, disputado na cidade da Praia em finais de julho.


    Dotada de muita técnica e velocidade, “Ló” como é conhecida, trata a bola com uma invulgar elegância. A estes atributos acrescenta visão de jogo, potência de remate e frieza na hora de finalizar.

     

    “Comecei a interessar-me pela bola desde muito pequena, com três ou quatro anos já jogava na rua com meus coleguinhas”, conta-nos a jovem futebolista durante uma conversa que foi sendo interrompida algumas vezes em plena cerimónia de consagração de Bola Pra Frente como nova campeã nacional. Primeir pausa, porque foi chamada para receber o troféu de MVP da final. Logo a seguir, voltou-se a ouvir seu nome. Lauziane e Nandinha marcaram, ambas, 5 golos no campeonato. O menor tempo de jogo na prova foi o critério para desempatar e, neste quesito, a Ló perdeu para a colega de equipa. Lauziane já ia regressando para retomarmos a entrevista quando teve de inverter a marcha, novamente. A mestre de cerimónia acabara de a anunciá-la como tendo sido eleita a melhor jogadora do campeonato.

     

    Foi já depois da consagração das novas campeãs nacionais, que pudemos continuar a conversa com a grande figura do campeonato, pela equipa de Bola Pra Frente/Fénix Talentos.


    As campeãs de Cabo Verde 2026 foram conhecidas precisamente numa altura em que a Seleção Nacional já se encontrava em Marrocos para a sua primeira participação na Copa Africana das Nações de futebol feminino.


    Com efeito, a conversa acabou por resvalar para a CAN. É um palco que Lauziane quer pisar. Mas, para isso, terá de chegar, primeiro, à seleção. Será uma questão de tempo, de pouco tempo, digo eu. "É algo com o qual sempre sonhei. Com muito trabalho e dedicação, acredito que um dia vou chegar lá", diz-nos com convicção.

     

    Na luta por este objetivo, a menina de Achada Fazenda nem precisa ir longe para encontrar um exemplo em quem se espelhar. Muito perto da sua localidade natal, no mesmo município de Santa Cruz, fica a Achada Ponta. É lá, naquela pequena comunidade piscatória, que despontou Ivânia Moreira, a jogadora que capitaneou a seleção de Cabo Verde no seu primeiro jogo de sempre na maior competição do futebol feminino em África. Vá, como é conhecida a atacante, já tinha feito há alguns anos o mesmo percurso que a Lauziane está a empreender atualmente. Começou a jogar e a destacar-se em equipas da sua região para, depois, rumar ao Sul, para a Cidade da Praia. Rapidamente se transformaria numa máquina de fazer golos, pela formação do Seven Stars. Por vários anos foi colecionando títulos regionais e nacionais, até seguir, em 2023, para Portugal, onde joga até agora.

     

    Lauziane, por sua vez, começou por integrar a ADENE, jogando sobretudo em placas. Com 12 anos, vai para Portas Abertas, tendo como treinador o conceituado Zagu com quem, reconhece, aprendeu muito. O voo para Santiago Sul chega aos 16 anos. Bayer foi a sua primeira equipa na capital do país. Seguiu-se Kumunidadi, onde esteve 3 anos. Em 2023 deu o salto para uma equipa mais forte, o Black Panthers que tradicionalmente luta pelos títulos em Santiago Sul. Duas temporadas no Black foram suficientes para despertar a "cobiça" da Fenix Talentos, na verdade uma nova equipa que se formou na sequência de uma dissidência do Seven Stars. Por causa de questões burocráticas se apresentou nesta época de estreia usando o nome da Academia Bola Pra Frente.

     

    Lauziane Tavares Varela, ou simplesmente Ló, quer ir longe no futebol. E a inspiração ela vai buscá-la numa antiga estrela do futebol... masculino: Kun Agüero, avançado argentino que brilhou na Inglaterra ao serviço do Manchester City. Agüero é ídolo de infância. Mas, hoje em dia, Ló talvez nem tenha necessidade de ir tão longe para se inspirar. Basta pensar numa espécie de lema - "Di Txada Ponta pa Mundu" - que as colegas/amigas da Ivânia Moreira usam para se referirem aos feitos da atacante. Era assim no Seven Stars. Continua a ser assim na Seleção Nacional.

     

    Na quinta-feira, 06, Vá marcou frente aos Camarões o golo que deu a Cabo Verde o seu primeiro ponto na Copa Africana das Nações. Com um belíssimo lance individual a culminar com um pontapé certeiro espetacular, a atacante reforçou a sua condição de melhor marcadora de sempre da Equipa Nacional feminina. Lauziane deve ter acompanhado tudo, visto e revisto aquela obra de arte, com muita atenção.

     

    Olhando para o talento que ela tem, mantendo o foco e responsabilidade, é quase certo que em pouco tempo a Ló venha a se transformar num caso sério no futebol feminino cabo-verdiano. E o mais provável é começar-se a ouvir "Di Txada Fazenda pa Mundu!” Tal como há muito se diz acerca da “matadora” de Txada Ponta.