Porto Abaixo, na cidade de Pedra Badejo, foi palco, neste domingo, da primeira edição da Rota Gastronómica de Katxupa, uma iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Santa Cruz que juntou, junto ao mar, os sabores da cozinha tradicional e as manifestações culturais mais enraizadas no concelho. Entre pratos de cachupa, tambores de tabanka, ladainhas e batuku, o encontro foi muito mais do que gastronomia: foi um convite a revisitar a identidade e os costumes de Santa Cruz.
O ambiente era de festa, confraternização e simpatia, traços que combinam bem com as gentes de Pedra Badejo. O sol brilhava, a baía de Falucho convidava a um mergulho e, lá em baixo, os adolescentes aproveitavam as águas límpidas para se divertirem. Cá em cima, entre os preparativos para a festa, a organização e as batucadeiras aproveitavam a pausa para fotografias. As mais jovens, naturalmente, não dispensavam as selfies e os vídeos para o TikTok. Afinal, a tradição também encontra espaço nas redes sociais.
Por volta das 12h30, começou a azáfama junto aos stands. As vendedeiras organizavam os produtos, preparavam os últimos detalhes e davam os retoques finais àquilo que prometia ser a grande protagonista do dia: a cachupa. Havia quase uma dezena de espaços, todos com a sua versão do prato mais emblemático da gastronomia cabo-verdiana. E quem conhece a cachupa sabe que não há duas exatamente iguais. Cada cozinheira tem a sua mãozada, o seu tempero e o seu segredo.
A oferta não se ficava por aí. Linguiça, fígado de porco, carne assada, torresmo, caldo de cana, água de coco e ponche completavam o cardápio, numa diversidade de sabores que convidava a sentar, provar e ficar mais um pouco. Na esplanada improvisada na rua, com o mar por companhia, a conversa corria solta e os pratos iam sendo apreciados. Mas, em Pedra Badejo, a festa não se faz apenas à mesa.
Foi então que os sons da tabanka começaram a ocupar o espaço. Tambores, búzios, cânticos e danças anunciaram a chegada da Tabanka de Salina, localidade situada à entrada da cidade. O cortejo trouxe consigo uma energia difícil de ignorar, daquelas que não se explicam facilmente, mas que se sentem no corpo e no ambiente.
Entre as badjadeiras, também conhecidas por mandoras, Taresa destacou-se pela sua dança e pela alegria contagiante que transmite ao longo do cortejo, despertando a curiosidade de quem acompanhava o desfile. A tabanka, para ela, é uma herança familiar. A irmã, Segunda, dançava ao seu lado, enquanto o irmão, Dinho, assumia o papel de Rei de Campo. O avô também já tinha ocupado um lugar de destaque na Tabanka de Salina, como Rei de Tabanka. Ali, a tradição não é apenas uma recordação dos mais velhos: é uma história que continua a ser escrita pela família, geração após geração.
Dinho tinha nas mãos uma das figuras centrais do ritual de Buska Santo: o ladrão, preso por uma corda, que ia sendo conduzido pelo cortejo na representação da procura do caminho que levaria ao lugar onde o santo roubado (na noite anterior) teria sido vendido. O ritual, carregado de simbolismo, é uma das expressões mais significativas do universo da tabanka, onde a encenação, a música e a dança se cruzam com a memória colectiva.
Outra presença que merecia um olhar atento era a de Nha Preta, de 84 anos, que desfilava no núcleo central do cortejo como líder das mandoras. Os seus passos eram firmes e elegantes, sem necessidade de grandes gestos para impor presença. Conta que, desde que se lembra de si, brinca a tabanka, um legado que recebeu da família e que continua a carregar com orgulho. A idade não lhe retirou o lugar na festa; pelo contrário, acrescentou-lhe a força de quem conhece a tradição por dentro, porque cresceu com ela.
Também se destacaram outras figuras do cortejo, como o Rei de Corte, conhecido por Mondon, e a mandora Vita. José Maria Cardoso, o Mondon, é um verdadeiro faz tudo, e a expressão aqui quase ganha sentido literal. Cumpre o papel de Rei de Corte, toca tambor, sopra o búzio, canta e ajuda a marcar o ritmo do desfile. Vita, que fora do cortejo trata da logística, transforma-se durante a atuação: toca tambor, sopra o búzio e dança como badjadeira. Na tabanka, cada pessoa parece ter o seu lugar, mas ninguém se limita a uma única função.
A Tabanka de Salina tem qualquer coisa de especial nos seus desfiles. Há uma energia própria, uma ligação entre os participantes e uma intensidade que dificilmente cabem numa descrição. É preciso estar lá, ouvir os tambores, acompanhar os passos e deixar-se envolver.
A animação cultural prosseguiu no pequeno palco instalado na rua transformada, por um dia, em espaço pedonal. Desta vez, foi a vez do grupo de batuku Mocinhos di Interior entrar em cena. Nos últimos anos, o grupo tem vindo a destacar-se pelas letras das músicas, pelos trajes e pelos elementos etnográficos que leva às actuações, numa aposta que aproxima o público dos costumes de outrora e contribui para o resgate da memória cultural.
Entre as vozes e o ritmo da tchabeta, foi difícil ficar indiferente à presença de Senhora Alice. Dona de uma voz potente e de uma forte presença em palco, tanto como vocalista como na tchabeta, deu ao espectáculo uma intensidade que prendia a atenção do público. O batuku voltou a mostrar que não é apenas música para acompanhar uma festa: é também memória, afirmação cultural e uma forma de contar histórias que atravessam gerações.
A primeira edição da Rota Gastronómica de Katxupa tinha, aliás, começado a ganhar corpo na noite anterior, quando a organização promoveu, na localidade de Salina, a tradicional ladainha e o ritual do roubo de santo. Entoada em coro e sem acompanhamento instrumental, a ladainha funciona como o momento ritualístico que antecede e anuncia as festas pagão-religiosas da tabanka.
Assim, entre a noite de Salina e o domingo de Porto Abaixo, a iniciativa foi ligando diferentes dimensões da cultura de Santa Cruz: a religiosidade popular, os rituais comunitários, a música, a dança e a gastronomia. A cachupa chamou as pessoas à mesa, mas foram as tradições que deram à festa a sua verdadeira dimensão.
Em Pedra Badejo, neste domingo, comeu-se cachupa, dançou-se batuku e acompanhou-se a tabanka. E, por algumas horas, a zona de Porto Abaixo serviu de cenário a uma celebração em que os sabores e os costumes se encontraram para lembrar que a cultura também se preserva assim: vivendo-a, partilhando-a e passando-a de mão em mão, de voz em voz e de geração em geração.
Décio Barros



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