Os incríveis 680 dias de Stopira. Sim, exatamente: 680 dias. Um número redondo, quase cinematográfico. De 13 de julho de 2024 a 24 de maio de 2026. Dois anos em que o destino pareceu escolher o mesmo homem para escrever os capítulos decisivos.
Tudo começou numa tarde de sábado em julho de 2024, no Estádio Nacional, na cidade da Praia. Corria o minuto 80 da final do Campeonato Nacional entre o Boavista da Praia e o Derby de São Vicente. O marcador assinalava um empate a uma bola (assistência de Stopira no primeiro golo) e o jogo caminhava para aquele território onde os nervos pesam mais do que as pernas. Foi então que Stopira subiu à pequena área e, de cabeça, marcou o golo que deu ao Boavista o quinto título nacional da sua história, catorze anos depois da última conquista. O capitão tornou-se herói. Daqueles heróis improváveis que aparecem sempre no momento exato.
Ianique dos Santos Tavares nasceu a 20 de maio de 1988, na cidade da Praia. O mundo do futebol passou a conhecê-lo por Stopira, nome inspirado no antigo internacional francês Yannick Stopyra, figura marcante do futebol gaulês nos anos 80. Mas, em Cabo Verde, Stopira acabou por ganhar um significado muito próprio: resistência, liderança e uma estranha capacidade de aparecer nos grandes momentos.
Na Seleção Nacional foi capitão em várias ocasiões. Durante anos, vestiu a camisola azul dos Tubarões com a naturalidade de quem carrega um pedaço do país nos ombros. Estreou-se em 2008, com apenas 20 anos, e ultrapassou as seis dezenas de internacionalizações. Mas o percurso nunca foi linear. Ficou de fora da histórica convocatória para o CAN de 2013 devido a uma grave lesão. Na altura, Lúcio Antunes era o selecionador principal e Bubista o adjunto. O mesmo Bubista que, anos depois, já como selecionador nacional, lhe voltaria a abrir as portas da Seleção e a convocá-lo para realizar o sonho do Mundial, aquele sonho que nasce na infância, alimentado pelas primeiras memórias de ver, pela televisão, os maiores craques do planeta sob os holofotes do maior palco do futebol mundial.
Porque o futebol gosta destas ironias. Stopira despedira-se da Seleção em 2024 e chegou até a ser homenageado pela Federação Cabo-verdiana de Futebol no intervalo do jogo com a Líbia, a 11 de junho daquele ano, no Estádio Nacional. Curiosamente jogo da 4ª jornada para qualificação para o Mundial 2026. Parecia o fim de uma longa caminhada a representar os Tubarões Azuis. Mas as lesões no setor defensivo obrigaram Bubista a pegar novamente no telefone. E Stopira voltou. Regressou a 4 de setembro de 2025, diante das Maurícias, e permaneceu entre os convocados para os restantes quatro decisivos jogos de qualificação para o Mundial.
Depois veio a noite de 13 de outubro de 2025. Outra vez o Estádio Nacional. Outra vez a mesma baliza. Outra vez Stopira.
Ao minuto 90+1, marcou o terceiro golo da vitória por 3-0 sobre Eswatini, resultado que confirmou Cabo Verde no Mundial 2026. O maior feito da história do futebol cabo-verdiano. E havia qualquer coisa de poético naquele momento: o mesmo estádio, a mesma baliza e praticamente o mesmo lugar onde, um ano antes, tinha dado ao Boavista da Praia um título nacional. Parecia uma dessas histórias exageradas dos filmes da Disney, onde o veterano "desacreditado" regressa para um último ato glorioso.

Mas os dias mágicos de Stopira ainda não tinham terminado. Ontem, 24 de maio de 2026, na final da Taça de Portugal, foi novamente ele a surgir no momento decisivo. Minuto 113, no prolongamento. Torrense contra Sporting, detentor do troféu. E o defesa cabo-verdiano marcou o golo da vitória histórica do clube de Torres Vedras. A maior conquista de sempre do Torrense. Pela primeira vez, uma equipa fora da primeira divisão venceu a Taça de Portugal. E lá estava Stopira outra vez, no centro da fotografia.
Como se não bastasse, o Torrense continua a lutar pela subida à Liga principal, num "play-off" frente ao Casa Pia, equipa onde joga outro Tubarão Azul, Dailon Livramento. Depois do empate sem golos na primeira mão, a decisão ficou marcada para esta quinta-feira, 28 de maio.
Curiosamente, poucos dias antes da final da Taça, o balneário do Torrense parou para assistir ao anúncio dos 26 convocados de Cabo Verde para o Mundial 2026. Quando o nome de Stopira apareceu na televisão, houve festa coletiva. Jogadores, equipa técnica, funcionários. Todos perceberam que estavam diante de algo raro: pela primeira vez, um jogador em atividade do Torrense seria convocado para uma Copa do Mundo. O vídeo desse momento correu o mundo e viralizou nas redes sociais e nos grandes meios de comunicação.
Stopira já tinha aprendido há muito tempo a desafiar previsões.
Formado na mítica EPIF, Escola de Preparação Integral de Futebol,fundada pelo histórico mister Djédji, começou nos seniores do Sporting da Praia antes de partir, aos 18 anos, para Portugal. Passou pelo Santa Clara, pelo Deportivo da Corunha, pelo Feirense e construiu a parte mais sólida da carreira na Hungria, ao serviço do Videoton, mais tarde MOL Fehérvár FC, onde permaneceu onze temporadas consecutivas. Onze anos no mesmo clube, no futebol moderno, é quase uma relíquia. Mas não sendo capitão de equipa, tornou-se uma referência dentro do balneário e, em 2019, adquiriu inclusive cidadania húngara por naturalização.
Quando regressou a Cabo Verde para jogar no Boavista da Praia, na época 2023/24, muitos viram naquele movimento o princípio do fim. Mas foi exatamente aí que a história voltou a ganhar força. Liderou o Boavista ao título regional de Santiago Sul e ao Campeonato Nacional, sendo decisivo na final. Um ano depois regressou a Portugal e ao futebol profissional para representar o Torrense, da Segunda Liga. E o resto já parece pertencer ao território das lendas improváveis.
Stopira está entre os eleitos de Bubista para o Mundial 2026, competição onde Cabo Verde fará a sua estreia histórica numa das maiores montras desportivas do planeta. A estreia dos Tubarões Azuis está marcada para 15 de junho de 2026, diante da Espanha, atual número dois do ranking FIFA, em jogo do Grupo H, na cidade de Atlanta, nos Estados Unidos da América.
Espanha é favorita. Cabo Verde ocupa a posição 69 do ranking, o futebol é imprevisível, o jogo pode dar para qualquer dos lados. Mas depois destes 680 dias, quem se atreve a duvidar de Stopira?
Depois de tudo o que aconteceu nestes últimos tempos, Stopira parece carregar uma aura especial. E se fossem precisamente os Tubarões Azuis a surpreender a poderosa Espanha, com o mesmo herói deste texto novamente em destaque?
Nada parece impossível para quem leva consigo a expressão "Di Beco Yaya pa Mundu" (do Beco Yaya para o Mundo). Uma frase nascida na zona de Meio de Achada, em Achada Santo António, um dos bairros mais populosos de Cabo Verde, e que resume muito mais do que uma origem: resume uma caminhada feita de persistência, superação e sonhos transformados em história. Um lembrete de que, às vezes, os sonhos mais improváveis começam exatamente nos lugares onde quase ninguém olha.
DB





