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    Riba, Baxu e uma bola: tudo o resto é história

    4 de abril de 2026

    Na Sexta-Feira Santa, o destino levou-nos até Junco. Não por promessa, nem por penitência, mas por futebol. Jogava-se o clássico mais esperado da localidade: Junco di Riba contra Junco di Baxu, em Sub 17 masculinos. Uma divisão geográfica simples, mas carregada de significado.


    Lá no alto, à entrada do concelho de Santa Catarina, Junco observa o mundo de cima. Ou melhor, observaria, não fosse a bruma seca cerrada que, nesse dia, decidiu esconder a paisagem. Ficaram por ver Assomada, o Pico de Antónia, a Ribeira dos Engenhos e até o recorte distante da ilha do Maio. Não foi possível apreciar a vistas. mas o espetáculo estava mais abaixo, num campo de terra batida.


    Era a nossa primeira vez em Junco, embora já o conhecêssemos de longe. Desta vez, aproximámo-nos o suficiente para perceber que aquele jogo não era apenas um jogo. Dias antes, um cartaz no Facebook já anunciava o duelo. "Riba" contra "Baxu". Bastava isso. Quem é da terra entende, e quem não é, aprende rápido.


    De manhã cedo, o campo começou a ganhar forma. Linhas traçadas com cal diluída em água, cordel esticado com precisão duvidosa e o inevitável recurso ao "olhímetro". Jogadores das duas equipas ajudavam, lado a lado, como se o jogo ainda não tivesse começado. E, de certa forma, já tinha.


    Depois, cada um regressou a casa. O sol escaldante mandava mais do que o relógio, e a partida teve de esperar. Em jogos de campo de terra, o tempo é sempre negociável.


    Quando regressaram, os rapazes traziam consigo mais do que vontade de jogar. Trouxeram os seus "kits", guardados quase como relíquias. Meias desparelhadas, sapatilhas gastas, calções largos, equipamentos improvisados que contam histórias. Alguns acrescentaram um lenço na cabeça, talvez para dar estilo, talvez para entrar no papel. Porque ali, naquele campo, não se joga apenas futebol. Representa-se.


    A organização, a cargo da Associação Para Desenvolvimento de Fonte Lima, dava um toque de formalidade ao encontro: taças, medalhas e um propósito, promover o desporto e o convívio entre os mais jovens. Mas, na prática, o que se disputava era mais antigo do que qualquer associação: a honra da zona.


    As equipas separaram-se. Coletes vestidos, treinadores improvisados, instruções gritadas com convicção. "Cabeça frio", "todos defendem", "todos atacam". O futebol, na sua forma mais pura.


    Antes do apito inicial, surgiu a primeira polémica. Adérito não podia jogar. Não por falta de talento ou idade, mas por ausência nos treinos. Num campo onde todos se conhecem, a justiça também se joga fora das quatro linhas. Adérito aceitou.


    À volta do campo, o público foi chegando. Crianças, raparigas, curiosos. A encosta transformou-se em bancada. Não havia bilhetes, nem cadeiras, apenas vontade de assistir.


    O jogo começou equilibrado, cauteloso. Mais do que vencer, era preciso não perder. O intervalo chegou sem golos, mas não sem história. À porta de uma casa ali ao lado, vendia-se "fresquinha". sorvete caseiro de tambarina, a dez escudos. Um negócio espontâneo, como tudo o resto naquele cenário.


    Na segunda parte, Hélio quebrou o empate para os di Baxu. Festa contida, porque em clássicos assim, nada é definitivo. E confirmou-se. Já perto do fim, Aquiles empatou para os di Riba. O grito foi alto, tão alto que até as cabras ali perto se inquietaram.


    Quando o relógio já quase não tinha tempo, surgiu nova reviravolta. Adérito entrou em campo. E com ele, a confusão. O jogo parou. Discutiu-se mais do que se jogou. No meio de tudo, a consciência tranquila do próprio Adérito: "mi goh n´ka bali".


    Entre discussão e negociação, decidiu-se no lugar onde tantas histórias acabam: a marca dos penáltis.


    Ali, onde o silêncio pesa mais, Gilson não falhou no penalti decisivo. O remate certeiro deu a vitória ao Junco di Riba. Mas, curiosamente, ninguém parecia verdadeiramente derrotado.
    Porque no final, as fronteiras desapareceram. Riba e Baxu voltaram a ser apenas Junco. As taças encheram-se de refrigerante, os risos misturaram-se e a festa foi de todos.


    E, como sinal dos tempos, ainda houve espaço para fechar com uma "trend" da Rocinha. Entre tradição e modernidade, aquele campo de terra continua a ser palco de algo raro: comunidade.


    Não fomos ver apenas um jogo. Fomos assistir a um pedaço de vida, daqueles que resistem ao tempo, ao progresso e até à bruma.

     

     

    DB