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    [com VÍDEO] A última semana de Nhô São Filipe vive-se sem dormir: crónica de uma primeira vez na festa maior do Fogo

    8 de maio de 2026

    A última semana das Festas de Nhô São Filipe, na ilha do Fogo, vive-se como uma maré: começa suave, quase discreta, e vai crescendo até tomar conta de tudo: das ruas, das casas, do Presídio, do hipódromo, da praia, da música, dos tambores e das pessoas.

     

    Concentramo-nos nessa derradeira semana porque é ali que a cidade atinge o seu auge. Mas as festividades começam muito antes, ainda em meados de abril, quando São Filipe começa lentamente a mudar de ritmo. Aos poucos chegam os emigrantes, surgem as primeiras atividades, os encontros multiplicam-se e a cidade ganha uma energia difícil de explicar.

     

    Contamos aqui o que vimos, numa espécie de linha do tempo sentimental, cronológica e afetiva. Embora já tivéssemos visitado a ilha do Fogo uma dezena de vezes, esta foi a nossa primeira experiência nas Festividades de Nhô São Filipe.

     

    E praticamente não saímos da Bila Baxu.

     

    O Centro Histórico de São Filipe, classificado como Património Nacional desde 2012, é daqueles lugares onde o tempo parece caminhar devagar. Entre sobrados coloridos, igrejas, ruas de pedra e edifícios administrativos, sente-se um orgulho silencioso na preservação da memória. A Bila Baxu está na Lista Indicativa da UNESCO desde 2004, atualizada em 2016 para candidatura a Património Mundial. E a própria ilha do Fogo, terra do único vulcão ativo de Cabo Verde, é desde 2021 Reserva Mundial da Biosfera.

     

    Chegámos no dia 24 de abril, praticamente junto com as últimas levas de emigrantes, quase todos vindos dos Estados Unidos da América. Viajam propositadamente para esta festa. E percebe-se porquê. Nhô São Filipe é mais do que uma celebração religiosa ou cultural; é reencontro, identidade e pertença.

     

    Os emigrantes chegam carregados de malas e vaidades boas. Diz-se por ali, em tom de brincadeira séria, que repetir roupa durante as festas é sinal de fraqueza. O dólar tem peso na economia local, mas é sobretudo a alegria que se impõe no rosto de quem regressa à terra natal para matar saudades.

     

    Nesse primeiro dia, o programa já estava cheio: finais das provas de resistência em atletismo e ciclismo, corridas de botes e, ao fim da tarde, um sunset no espaço The View, com Josslyn como cabeça de cartaz.

     

    Mas o verdadeiro epicentro das festividades chama-se Casa das Bandeiras. Situada em frente à Praça do Presídio, virada para a ilha Brava, é ali que pulsa a alma das festas. Durante vários dias acontecem os tradicionais almoços preparados em panelonas sobre lenha, acompanhados pelo ritual do pilon, talvez um dos momentos culturais mais belos e autênticos da ilha.

     

    No centro da quintalona, da Casa das Bandeiras, três mulheres pilam milho em perfeita sintonia, acompanhadas por tambores, coladeiras e pelo som seco do “homem do colexo”, que transforma dois paus numa espécie de instrumento ancestral. O pilão deixa de ser apenas trabalho; torna-se música, coreografia e memória coletiva.

     

    Antes do almoço ser servido, lança-se um foguete. O estampido ecoa pela cidade como um anúncio solene: a comida está pronta, podem chegar.

     

    A Casa das Bandeiras ganha outra dimensão durante estes dias. É gerida parcial e temporariamente pelo festeiro, a pessoa, família ou entidade responsável por organizar e financiar as celebrações do santo padroeiro. Este ano, a responsabilidade coube aos Sigui Sabura.

     

    Mas falar da Casa das Bandeiras em profundidade exigiria páginas e páginas. E não por acaso já inspirou teses académicas, investigações e estudos.

     

    No dia 25 de abril, a ilha acordou dividida entre duas aventuras radicais: a tradicional subida ao vulcão organizada pelo Alô e o Mano a Mano Off-Road, que percorreu caminhos improváveis por quase toda a ilha. Ambos convergiram para o mesmo lugar simbólico: Chã das Caldeiras. Nos seguimos a boleia do Mano a Mano Off-Road. E foi maravilhoso conhecer a ilha, para lá do asfalto.

     

    Ao pôr-do-sol, a praia de Encarnação encheu-se para a famosa Festa Havaiana, com Elji Beatzkilla no palco.

     

    O domingo ficou reservado ao Miss São Filipe 2026, no Centro Cultural Armand Montrond. Erica Mendes, de 18 anos, do bairro de Xaguate, foi coroada vencedora.

     

    Muito mais do que uma corrida de cavalos

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    Mas um dos grandes momentos das festas começou no dia 27: as eliminatórias das corridas de cavalos.

     

    Na ilha do Fogo, o hipismo vive-se com intensidade rara. A corrida de cavalos de São Filipe é provavelmente a maior manifestação popular ligada ao hipismo em Cabo Verde. E impressiona pela forma democrática como junta toda a gente de todos os extratos sociais: crianças, idosos, emigrantes, agricultores, empresários.

     

    Ali, os cavalos são verdadeiras estrelas. Toda a gente conhece os nomes, as linhagens, os pontos fortes. Discute-se estratégia, velocidade, resistência. Fazem as apostas. Quando um cavalo morre, há quem fique genuinamente de luto. É uma paixão difícil de explicar, mas muito fácil de sentir para quem vive o ambiente pela primeira vez.

     

    Nesse dia, 14 cavalos disputaram as eliminatórias. Arbisa Sabi, Rainha das Ilhas (campeã de 2025), Pesadelo e Djabrava venceram as respetivas séries. Depois vieram as repescagens e completou-se o lote de finalistas. Dois depois, na Grande Final, o cavalo Arbisa Sabi e o seu jockey Kani Nascimento, de 16 anos, da ilha do Sal, foram os grande vencedores da maior prova de cavalos de Cabo Verde.

     

    Noites sem fim no Presídio

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    Também nesse dia arrancou a Noite Branca no Presídio, outrora chamado Baile Popular. Cinco noites consecutivas de música cabo-verdiana, sempre a começar às 23 horas e a terminar já perto do amanhecer. Literalmente, a cidade pára para festejar.

     

    Passaram pelo palco nomes como Gil Semedo, Garry, Tony Fica, Hélio Batalha, Denis Graça, Neyna, Ceuzany, Buguin Martins, MC Acondize, Face a Face, Indira, Trakinuz, Nhelas, Eder Monteiro, Alyrio, Du Marthaz e Zuleica do Rosário, entre muitos outros.

     

    As noites no Presídio tinham qualquer coisa de mágico. A lua ia crescendo noite após noite até atingir a plenitude precisamente a 1 de maio. E ali, junto à Brava, derramava uma luz prateada sobre a praia de Fonte Bila.

     

    Mesmo com os altos decibéis da música, o som das ondas continuava presente lá em baixo, persistente, como uma banda sonora secreta das festividades.

     

    Os foguenses gostam dos artistas de forma intensa. E quando um cantor entra no coração da ilha, o público exige o seu regresso ano após ano. Era frequente ouvir artistas dizerem no palco: "Esta já é a minha quarta participação consecutiva." 

     

    "Tempo ki bai" ganhou outro sentido ao ritmo dos tambores de Valdimiro

    No dia 30, fomos convidados pelo pessoal do Sigui Sabura para um almoço na Casa das Bandeiras. Entrámos pela porta traseira em direção ao salão principal. Mas bastou atravessar a quintalona para tudo parar.

     

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    Os raios de sol atravessavam algumas telhas transparentes e misturavam-se com o fumo das panelas. O ritual do pilão decorria ao fundo. As panelonas ferviam. O cheiro da djagacida com carne de bode tomava conta do espaço.

     

    Foi daqueles momentos em que o tempo parece suspenso.

     

    Acabei sentado à mesa, no fundo do quintal, com um prato generoso à frente e, por coincidência feliz, Mayra Andrade estava ali mesmo, no quintal. A música "Tempo ki bai" veio imediatamente à memória. Já que o tempo parou e o momento será lembrado com carinho.

     

    Nesta primeira experiência em Nhô São Filipe, houve um som que ficou como banda sonora permanente: os tambores.

     

    E todos seguiam o ritmo do senhor Valdimiro, que em novembro completa 89 anos e leva cerca de sete décadas nestas andanças. Entre os tamboreiros encontrava-se também o ativista e investigador cultural Gamal Kwame Monteiro, residente na cidade da Praia é presença habitual das festas.

     

    Finalmente chegámos ao dia D. O 1 de maio, em São Filipe, ilha do Fogo, é simultaneamente o Dia do Município e o dia do santo padroeiro, Nhô São Filipe. Toda a movimentação e alegria que se vê pelas ruas, nos rostos dos residentes, mas também nos milhares que chegam das outras ilhas e da diáspora para viver o dia grande.

     

    Djababa assistia tudo de perto

    Durante toda a semana, a ilha Brava apareceu ao longe coberta por nuvens em forma de coroa no topo da montanha. Dizem que é assim quase o ano inteiro. Mas naquele 1 de maio houve um detalhe curioso: as nuvens desceram para o sopé da ilha, como se a Brava se tivesse curvado perante a grandeza da festa e, simbolicamente, tivesse passado a coroa a Nhô São Filipe, sussurrando ao longe: "Parabéns, hoje é o teu dia".

     

    A música no Presídio terminou já com o nascer do sol. A cidade acordou sem dormir. Entre milhares de pessoas que abandonavam lentamente o recinto, cruzámo-nos com um grupo de tamboreiros a meio do percurso da tradicional Alvorada, que anuncia o início das atividades do dia grande. E lá seguia novamente o senhor Valdimiro, faz 89 anos em novembro, firme no compasso.

     

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    Sr. Valdimiro, mais de 70 anos a marcar o ritmo destas festas

     

    Às 11 horas começou a Procissão e a Missa na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, construída no final do século XIX. É o momento maior da fé e promessas.

     

    Depois veio o grande almoço na Casa das Bandeiras. Centenas de pessoas em movimento, pratos a entrar e sair, equipas coordenadas quase em silêncio, anos e anos de experiência acumulada naquela logística comunitária.

     

    Posicionámo-nos na quintalona a observar a azáfama quase coreografada da equipa de apoio, num entra e sai constante de pratos em direção às mesas ocupadas por convidados, patrocinadores e figuras da ilha. Entre panelonas, travessas e vozes cruzadas, percebia-se que havia ali anos de experiência acumulada. Uma das senhoras contou-nos que muitos daqueles rostos fazem parte da organização há dezenas de anos, numa comissão de apoio composta por pessoas residentes no Fogo e também na cidade da Praia.

    Depois do almoço farto, seguimos para o Alto São Pedro, onde decorriam a tradicional Cavalhada e a passagem da bandeira ao próximo festeiro.

    A cidade fervilhava de gente. No dia grande, chegam famílias inteiras vindas de todos os cantos da ilha. As ruas transformam-se numa montra viva de encontros e elegância, com muitos a vestirem as melhores roupas guardadas especialmente para esta festa.

     

    Na Cavalhada, uma das grandes tradições desta Festa, as ruas cobertas de areia recebeu os cavalos, cavaleiros e crianças maravilhadas. Há um momento particularmente bonito: quando os cavaleiros rebentam bolsas cheias de rebuçados e os mais pequenos correm para apanhar o maior número possível. É uma memória que atravessa gerações. Porque a Festa de São Filipe não pertence apenas à cidade. Pertence à ilha inteira. E também à diáspora, sobretudo à comunidade nos Estados Unidos.

     

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    Ao final da tarde, a Bandeira passou dos Sigui Sabura para a empresa Café de Cabo Verde, o festeiro de 2027.

     

    O sol começava a descer lentamente sobre os sobrados coloridos da cidade. E São Filipe parecia ainda mais bonita. O município faz jus ao slogan que carrega: “Um Município para Visitar, Viver e Amar.”

    Nessa noite houve ainda mais música no Presídio.

     

    E nós regressámos à cidade da Praia no dia seguinte com aquela sensação rara de quem não assistiu apenas a uma festa, mas mergulhou profundamente numa das mais ricas manifestações culturais de Cabo Verde.

     

     

    Décio Barros