LogoAgenda Cultural Cabo Verde
    ok

    Benji, Mayra e um autógrafo com história (e multa)

    3 de maio de 2026

    Há histórias que parecem inventadas, mas a vida insiste em escrevê-las com uma ironia bonita.

     

    Neste sábado, 2 de maio, Benji Comédia subiu ao palco do Auditório Nacional Jorge Barbosa, na cidade da Praia, para um espetáculo de stand-up a solo. Risos, cumplicidade com o público e aquela leveza própria de quem sabe contar histórias. 

     

    Mas foi já no fim, que aconteceu o momento mais inesperado, e que há muito não teve um inicio feliz .

     

    Nas primeiras filas estava Mayra Andrade. Benji chamou-a. Pediu-lhe um autógrafo. À primeira vista, um gesto simples. Mas não era.

     

    Era, na verdade, uma espécie de reconciliação com o passado, um acerto de contas com uma história que começou há mais de duas décadas, movida por um desejo aparentemente inocente: conseguir um autógrafo da cantora.

     

    Voltemos atrás. Mayra Andrade tinha então 19 anos e dava um dos seus primeiros passos internacionais, num concerto no Luxemburgo, em março de 2005, integrado no Festival das Migrações. Entre o público, um jovem Benji, ainda longe dos palcos, mas já atento.

     

    No final do espetáculo, o ritual habitual: fãs à procura de um autógrafo, folhas com fotografias da artista a circular. Benji não tinha nenhuma. E foi aí que a história descarrilou, ou ganhou contornos de comédia.

     

    Já fora do recinto, à espera do transporte, viu um cartaz do concerto. Grande. Perfeito. Demasiado perfeito. A ideia surgiu, impulsiva: partir o vidro do outdoor, retirar o cartaz e levá-lo para ser assinado. Fez isso mesmo.

     

    O momento não passou despercebido às câmaras de vigilância. O resultado? Uma multa em milhares de euros, o preço de um autógrafo… e de uma boa história para contar anos depois. [e recordou o momento no CVCultural Podcast]

     

    O tempo fez o resto. Hoje, Benji Comédia é um nome consolidado no humor, e Mayra Andrade uma das grandes referências da música cabo-verdiana contemporânea. Se naquele dia, em Luxemburgo, ela estava no palco e ele na plateia, na noite de sábado, na Praia, os papéis inverteram-se, com a mesma admiração, mas agora partilhada de igual para igual. E Benji, desta vez, não precisou de partir vidro nenhum.

     

    Pediu o autógrafo ali, à vista de todos. Com humor, com respeito e com uma certa ternura que só as histórias bem resolvidas conseguem carregar.

     

    Continua apreciador das músicas da Mayra Andrade e fã assumido, daqueles que vestem t-shirts com o rosto da artista sem pudor e vezes sem conta (assim como Oracy Cruz está para o ananás), Benji provou que, às vezes, crescer também é isto: rir do passado, assumir os excessos e, quando a vida dá nova oportunidade, fazer tudo… da forma certa.

     

     

    DB