Agenda Cultural de Cabo Verde
    Viagem

    De Cesária Évora a Horace Silver, a música desenha Palmarejo Grande

    15 de outubro de 2026

    7 min de leitura

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    Dos 74 bairros que compõem a malha urbana da cidade da Praia, Palmarejo Grande é um dos exemplos de urbanização planificada da capital cabo-verdiana. A sua história urbana começou a ganhar forma no início dos anos 2000, tendo a Universidade Jean Piaget sido uma das primeiras infraestruturas a erguer-se naquele território. Desde então, o bairro tem crescido a duas velocidades, nos primeiros 15 anos do século XXI num ritmo lento e nos últimos dez anos num ritmo acelerado, com novos edifícios a redesenhar a paisagem.

    Mas não foi a rapidez da urbanização, nem a multiplicação de prédios residenciais em vertical e espaços académicos, que nos despertou a curiosidade. O que chama a atenção em Palmarejo Grande é a sua toponímia: avenidas e ruas que homenageiam algumas das figuras mais marcantes da música cabo-verdiana e internacional.

    São cinco avenidas que parecem compor os primeiros acordes de uma grande homenagem: Cesária Évora, Katchás, Bana, Horace Silver e Celso Fernandes. Pelas ruas, a música continua a tocar, agora com os nomes de Manuel di Novas, Bilocas, Vadú, B. Leza, Hermínia Fortes e Eugénio Tavares. A diversidade de origens destes músicos reflete, de certa forma, a própria diversidade de quem hoje habita o bairro, transformado num ponto de encontro de pessoas com diferentes percursos, histórias e vivências.

    Até os edifícios residenciais parecem entrar na partitura. O maior complexo habitacional do bairro, constituído por três condomínios, chama-se Dó Ré Mi. À entrada do Condomínio Ré, uma frase escrita num mural resume bem o espírito do lugar: "Condomínio Ré, viver aqui a música é outra". Construídos no âmbito do programa habitacional "Casas para Todos", promovido pelo Governo de Cabo Verde, os três condomínios fechados reúnem mais de 500 apartamentos T2 e T3. Uma pequena cidade dentro do bairro, onde até os nomes dos edifícios parecem convidar os moradores a viver ao ritmo da música.

    Quem conheceu Palmarejo Grande no início dos anos 2000 dificilmente ficará indiferente à transformação do bairro. Onde antes se estendiam terrenos baldios, surgiram ruas asfaltadas e infraestruturas subterrâneas de saneamento e eletricidade, muitas delas instaladas antes de os edifícios em altura começarem a desenhar a nova paisagem. Durante algum tempo, as ruas bem sinalizadas serviram não só à circulação rodoviária, mas também à prática de jogging e às aulas de condução.

    Mas, muito antes de o betão tomar conta da paisagem, estes terrenos eram zona de pastagem. E, apesar da urbanização acelerada, ainda é possível encontrar vacas, cabras e carneiros a atravessar tranquilamente algumas ruas, como quem reclama um território que sempre conheceu. Afinal, por aqui, os animais chegaram primeiro. Os verdadeiros "intrusos" vieram depois: os humanos.

    Hoje, a valorização imobiliária é visível. As construtoras já estendem o olhar para os montes que delimitam parte do bairro, procurando novas áreas de expansão. Entre eles está o conhecido Monte Vermelho, associado aos estudos do naturalista britânico Charles Darwin no século XIX, uma das suas passagens por Cabo Verde.

    Palmarejo Grande é agora também um espaço de residência, ensino e turismo. Conta com três unidades hoteleiras, vários apartamentos anunciados em plataformas online de alojamento local, duas universidades, uma escola de formação em hotelaria e turismo e um estabelecimento de ensino primário e secundário. Milhares de pessoas fazem do bairro o seu lugar de residência, enquanto outras passam diariamente pelas suas ruas, entre aulas, trabalho e compromissos.

    A expansão estende-se ainda ao Vale de Palmarejo Grande e à zona de expansão, onde se encontram a Universidade de Cabo Verde, a maior instituição de ensino superior do país, inaugurada em 2021, o CERMI (Centro de Energias Renováveis e Manutenção Industrial) e instalações da Electra.

    Tudo isto ajuda a explicar a dimensão que Palmarejo Grande ganhou nas últimas duas décadas. Mas voltemos ao motivo da nossa curiosidade: a música. Caminhar pelo bairro, de olhos postos nas placas com os nomes das ruas e avenidas, é quase como folhear uma discoteca de clássicos. Basta encontrar o nome de um artista para que a memória comece, por conta própria, a escolher a banda sonora.

    Começámos pelas coladeiras de Bana, mas depressa a viagem ganhou outros ritmos e sabores. Veio à memória "Tchadinha", uma composição de Paulino Vieira, com aquele convite irresistível: "Nô bai, nô bai pa Tchadinha; Tchadinha tem cosa sabe, tem cosa doce sima mel, tem modjo, tem cabritada, tem torresmo pa bafa um groguinha". Uma verdadeira ode aos prazeres da mesa cabo-verdiana, que também cabem nesta viagem musical por Palmarejo Grande. E, num dia em que caía uma chuvinha mansa, a memória puxou também por "Tâ Pinga Tchapo Tchapo", composição de Anu Nobu. "Tâ bai tâ pinga tchapo tchapo", cantava a memória, entre imagens de chuva miudinha e um grogue que, afinal, também tem o seu lugar na banda sonora do bairro.

    Bastou atravessar uma rotunda para entrarmos na Avenida Katchás. O nome recorda um dos músicos que ajudaram a tirar o funaná do relativo isolamento rural e a levá-lo aos centros urbanos, com particular impacto na cidade da Praia, antes de conquistar também as comunidades cabo-verdianas na diáspora.

    Aqui, a memória não podia deixar de chamar o Bulimundo. A música homónima tornou-se uma espécie de cartão de visita do grupo, e há um trecho que continua a soar com a força de um manifesto de identidade: "N buli mundu na Tarafal, n buli mundu na fin di mundu". Depois, o convite para ouvir a nossa música (batuku, tabanka e funaná) e a afirmação de pertença que atravessa gerações. Ou então "Djam Brancu Dja", cuja sonoridade parece encontrar um curioso eco num bairro hoje dominado por condomínios e edifícios de apartamentos, alguns de luxo.

    Da Avenida Katchás, seguimos para a Avenida Cesária Évora. E, com o nome da Diva dos Pés Descalços diante dos olhos, a viagem mergulhou nas mornas e coladeiras interpretadas em variante de Santiago, ou, mais precisamente, em badio. "Tchintchirote" veio logo à memória, com os seus versos sobre a menina que fala demasiado, como o passarinho que não se cala na figueira. Uma canção que nos faz sorrir e que, mesmo sem sair do bairro, nos transporta para o universo das palavras, expressões e vivências do quotidiano cabo-verdiano.

    Mais adiante, foi a vez de Vadú, com "Dixi Rubera" e "Palo ku Palito". Desta última, ficou a ressoar o trecho "Nha guenti Palo ku Palito, es da rincada es bai Praia, es ka flan nada não". Mais uma paragem musical, desta vez ao som de um artista cuja obra continua ligada à memória coletiva e às histórias do povo.

    A viagem seguiu pelas mornas de Eugénio Tavares, com destaque para "Mininu Ná", uma canção que remete para o universo da infância e para a tradição de embalar os recém-nascidos. A escolha parece particularmente feliz num bairro que acolheu muitos jovens casais e famílias em formação. Das melodias de Nhu Tatai, nome familiar pelo qual o povo cabo-verdiano evoca o poeta e compositor Eugénio Tavares, passámos às coladeiras de crítica social de Manuel di Novas.

    Mas, neste caso, foi uma composição de Manuel di Novas, popularizada pela voz de Ildo Lobo que nos ficou especialmente gravada na memória: "Biografia d'Un Kriol". E, com ela, um verso que resume um sentimento de pertença que atravessa fronteiras: "Ma N ta sinti felis di ter naside kaberdian".

    Pelo caminho, houve ainda espaço para o jazz e o blues de Horace Silver, o músico norte-americano com raízes cabo-verdianas, cuja presença na toponímia do bairro alarga esta playlist para lá dos ritmos do arquipélago.

    De Bana a Katchás, de Cesária Évora a Vadú, de Eugénio Tavares a Manuel di Novas, sem esquecer Paulino Vieira, Anu Nobu e Horace Silver, Palmarejo Grande transformou-se, por momentos, numa discoteca a céu aberto. Cada avenida sugeria uma música, cada rua despertava uma lembrança e cada nome abria caminho para outra história.

    Afinal, há bairros que se conhecem pelos edifícios, outros pelas paisagens. Em Palmarejo Grande, também se pode passear de ouvido. Basta ler as placas, deixar a memória trabalhar e carregar no play.

    Sem sair do bairro, fizemos uma viagem por diferentes ritmos, épocas e geografias musicais. Uma espécie de playlist a céu aberto, construída não por algoritmos, mas pela memória e pelas placas toponímicas.

    Em Palmarejo Grande, as avenidas e as ruas não servem apenas para orientar quem passa. Também contam histórias, preservam e homenageiam nomes e despertam melodias. E, entre prédios que continuam a nascer e montes que começam a despertar o interesse imobiliário, há uma certeza: neste bairro da Praia, a música faz parte da paisagem.

    Afinal, como sugere o mural do Condomínio Ré, viver aqui a música é outra.

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