Na noite de ontem, 28 outubro, Praia olhou para o Caribe. No Auditório Nacional Jorge Barbosa, o documentário "Para vivir", de Fabien Pisani, foi apresentado perante uma plateia que veio escutar, ver e, sobretudo, lembrar. O realizador, filho adotivo de Pablo Milanés, estava presente, e o protagonista, falecido em 2022, também esteve, de certa forma, na sala.
Pablo Milanés (1943–2022) foi uma das vozes mais influentes da história da música cubana. Cantor, guitarrista e compositor, fundou, ao lado de Silvio Rodríguez e Noel Nicola, o movimento da Nueva Trova Cubana. Na sua obra cabem o son, o filin, a canção de protesto e as canções de amor de forte carga poética.
O filme abre numa manhã de verão em Madrid. Milanés, já debilitado pela doença, vive num exílio autoimposto e sabe que aquelas imagens serão uma homenagem póstuma. É nesse tom que partilha as suas últimas reflexões sobre a vida, a arte e o tempo que passa. Ao longo de 106 minutos, a fragilidade de uma despedida anunciada cruza-se com a grandeza do percurso musical, em duas frentes paralelas: a intimidade da família e a história de Cuba.
À exibição seguiu-se uma conversa com o realizador e um momento musical que ninguém esperava que acabasse. Mário Lúcio e Mayra Andrade cantaram canções de Milanés e, a meio de um dueto, Mayra chamou ao palco Princezito, outro cantor cabo-verdiano que, tal como eles, passou pela formação académica em Cuba ainda juvenil.
Não foi acaso. Mayra nasceu em Havana, onde o pai era diplomata. Mário Lúcio mudou-se para a ilha na juventude e licenciou-se em Direito pela Universidade de Havana. Nos anos 80, enquanto estudava e dava os primeiros passos públicos na música, aproximou-se dos grandes nomes da Nueva Trova e conheceu Milanés, então já figura consagrada. Da admiração mútua nasceram colaborações em estúdio, onde a canção de autor cubana se cruzou com a morna e os ritmos tradicionais de Cabo Verde. Mário Lúcio chama-lhe "irmão" e uma das suas maiores referências, artística e humana. Os dois cantores partilham, por isso, a marca de uma cultura que os formou.
Foi Mayra, de resto, uma das promotoras da vinda do realizador a Cabo Verde. "Cuba sempre fez parte do meu imaginário", disse, lembrando a infância musical e a promessa de uma terra do outro lado do mar onde a música invadia as ruas. Aos 22 anos regressou à ilha e descobriu o valor de um povo solidário e internacionalista, uma solidariedade que, recorda, sempre chegou aos países africanos. "Nós, cabo-verdianos, devemos muito a Cuba."
Foi nessa viagem que conheceu Milanés e passou a fazer parte da família, numa amizade profunda. Pablo Milanés foi sogro da Mayra durante seis anos. Ao ver o filme num festival de cinema em Lisboa, sentiu "um chamado" e pediu ajuda à mãe para o trazer a Cabo Verde. O objetivo era que uma nova geração, que não conhece Pablo Milanés, descobrisse os valores que ele defendia, "sobretudo amor e liberdade", e se deixasse contagiar por eles num momento tão conturbado do mundo.
Ela e Mário Lúcio quiseram, além de despertar a curiosidade do público para a sessão, prestar uma homenagem. Mayra resumiu-o numa frase simples: o artista cubano significa muito para nós.
Pela cantiga, pelo ecrã e pela memória dos que o conheceram, Pablo Milanés esteve ontem na Praia. E, ao que tudo indica, vai continuar por cá.
Décio Barros






