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    Zidi Andrade, Dino Almeida e Nessa Onda, no espaço KA7

    Duas vozes, uma raiz: Zidi Andrade e Nessa Onda numa noite de reencontro no KA7

    10 de janeiro de 2026

    Na noite deste sábado, 9 de janeiro, o KA7, esse refúgio discreto na rampa da Terra Branca, transformou-se num lugar de reencontros, memórias e canções ditas em voz baixa. "Zidi Andrade convida Nessa Onda" foi mais do que um concerto: foi uma conversa cantada entre duas vozes jovens que partilham raízes, referências e um mesmo respeito pela música cabo-verdiana.


    O espetáculo nasceu em formato intimista e acústico, embalado pela guitarra segura e sensível de Dino Almeida. O espaço, de decoração vintage e atmosfera acolhedora, parecia feito à medida daquela noite: luz quente, cadeiras próximas, um público atento e disponível para receber a boa energia que vinha do palco. Tudo conspirava para que a música acontecesse sem pressa, como quem conta histórias a amigos.


    O repertório foi uma viagem suave pela música tradicional cabo-verdiana, revisitada com delicadeza e frescura. Mayra Andrade, Sara Tavares, Orlando Pantera, Vadú, Princezito, nomes que são faróis e que ambas assumem como grandes influências na construção das suas identidades musicais. Entre  canções de balanço contido, Zidi e Nessa Onda cantaram com leveza, qualidade sonora e uma naturalidade rara, dessas que denunciam talento em estado bruto e tempo a trabalhar a favor. Fica a sensação clara de que é apenas uma questão de tempo até que os seus nomes se afirmem de forma definitiva no panorama musical cabo-verdiano.


    As duas conheceram-se em 2015, no concurso Todo Mundo Canta, no emblemático Parque 5 de Julho, espaço que, durante anos, revelou talentos e foi uma das mais importantes salas de música da capital. Nessa Onda venceu o concurso com apenas 16 anos, interpretando temas de Dina Medina, Sara Tavares e Grace Évora, músicas que ouvia em casa e que fazem parte da sua memória afetiva. O prémio prometia cem mil escudos e a gravação de um CD, que nunca chegaram a concretizar-se. Mas, com um sorriso largo, resume o saldo dessa experiência: "ganhei experiência e muitas amizades". Uma delas foi Zidi, que ficou em quarto lugar. Desde então, nasceu uma amizade sólida, uma conexão difícil de explicar, mas fácil de sentir.


    Dez anos depois, o reencontro no KA7 teve sabor especial. Nessa Onda está em Cabo Verde de férias. Em 2018 rumou ao Brasil para prosseguir os estudos superiores, licenciou-se em Enfermagem, em Florianópolis, e agora vive em São Paulo, conciliando a vida académica com a música, que nunca ficou pelo caminho. Em 2024, venceu o Prémio de Artista Revelação do Ano nos Cabo Verde Music Awards (CVMA), com a canção "Completam", destacando-se entre nomeados como Bertânia Almeida e Zubikilla Spencer.


    Nascida Vanessa Tavares Silva, natural da cidade da Praia e filha de pais do Tarrafal de Santiago, tornou-se conhecida do grande público após essa distinção. O nome artístico, curioso e pouco comum, nasceu em plena pandemia. Vanessa já era tratada por "Nessa", até que, ao participar no concurso online "Quarentena Got Talent", em 2020, o humorista Carlos Andrade, promotor da iniciativa, a batizou de "Nessa Onda". O nome colou, passou para o Instagram e ficou.


    No Brasil, a música começou como hobby, entre saraus e encontros culturais da comunidade cabo-verdiana e africana. Até que um encontro decisivo com um engenheiro de som guineense, produtor da Fufu Records, mudou o rumo das coisas. Impressionado, convidou-a a integrar a produtora. Em 2023 começaram as gravações e nasceu "Completam", uma canção sobre o amor, escrita ainda na adolescência, entre amigas e amigos. Em 2024, lançou “Gosta di Bo”, em parceria com o rapper Ritxa Kursha. Para 2026, prepara um EP em crioulo, com temas da sua autoria. Sara Tavares surge como a sua grande referência: pela forma de compor, interpretar e entregar a música com verdade.


    Zidi Andrade, de nome próprio Zidinailen Andrade dos Santos Gonçalves, também nasceu na Praia, mas partiu ainda bebé para o Mindelo, onde viveu quase toda a adolescência. Filha de pai são-vicentino e mãe foguense, encontrou o gosto pela música em casa: o pai tocava nas noites cabo-verdianas e a música fazia parte do quotidiano. Hoje, com 29 anos, vive na Praia desde os 16. Estudou na universidade, em Tecnologias Multimédia e Comunicação e trabalha numa conceituada produtora audiovisual.


    Para este ano, Zidi prepara o lançamento de um EP. Antes, em abril, quer apresentar o single "Omi Bedju", com letra da poetisa Érica Silva. "Será uma espécie de ‘olá, eu sou a Zidi’", explica, antes de revelar o EP completo. Orlando Pantera é assumidamente uma referência central, o "génio", como lhe chama, e o seu legado estará presente no disco. Zidi integrou o filme-documentário "Orlando Pantera", onde interpretou uma canção, surgindo no filme como parte da nova geração influenciada pela obra do músico. Uma participação que assume com orgulho e gratidão.


    A sua primeira atuação em público aconteceu, como tantas histórias semelhantes, no evento de finalista do pré-escolar. Entre risos, recorda que cantou em todas as "finalistas": da primária ao liceu. Falta apenas a universitária para fechar o ciclo. No Todo Mundo Canta, interpretou Orlando Pantera, Betú e Mayra Andrade. Depois vieram participações em noites cabo-verdianas, na Noite Branca Praia 2024, em eventos do Ministério da Cultura dedicados à morna e em iniciativas próprias nos espaços musicais da Praia.


    Questionada sobre como se define, responde sem hesitar: "como uma cantora da música cabo-verdiana". Reconhece que está num processo contínuo de construção, de descoberta. Escreve, canta e inspira-se no tradicional, sem o engessar. Entre as referências que enumera estão Mayra Andrade, Sara Tavares, Orlando Pantera, Vadú, Princezito, Fattú Djakité e Alberto Koenig. Em Mayra Andrade vê um percurso que gostaria de alcançar um dia. Não apenas pela voz, mas pela interpretação que vem da alma, pela aura e pela essência que fazem o público vibrar atentamente.


    Naquela noite no KA7, entre acordes suaves e vozes cúmplices, ficou claro que Zidi Andrade e Nessa Onda pertencem a essa linhagem: artistas que cantam com respeito pela raiz, mas com os olhos postos no futuro. E isso, por si só, já é uma promessa bonita.

     

     

     

    Décio Barros