A noite já ia adiantada no Tarrafal quando, entre o ritmo quente do pam pam, do tchabeta e de vozes, um canto se destacou. Não foi apenas a força do batuku, mas a forma como uma jovem, no centro do grupo, segurava a música com o olhar firme e a voz segura. Na 21ª edição do Festival de Batuku Nôs Tradison, realizada a 28 de dezembro, foi impossível não reparar em Liliane Gomes.
Cantava com uma aura contagiante. A sua voz guiava o grupo, transmitia confiança às companheiras e, sem esforço aparente, prendia o público. Havia ali liderança, mas também entrega, uma comunhão rara entre quem canta, quem bate e quem escuta.
Liliane integra o grupo Coragem, de São Salvador do Mundo, da localidade de Chão Rodrigues. Um grupo jovem, talvez dos mais jovens a subir ao palco do mais antigo festival de batuku do país - o Festival de Batuku Nôs Tradison, promovida pela Associação Delta Cultura. Formado há apenas seis meses, o grupo Coragem, reúne 17 elementos, quase todas adolescentes que já começam a deixar marca. Em novembro, conquistaram o segundo lugar num concurso de batuku em Assomada, entre dezenas de participantes. Desde então, os convites sucederam-se, como se o batuku tivesse pressa de os mostrar ao mundo.
Antes da estreia no Batuku Nôs Tradison, passaram pelo Festival de Música de Nha Santa Catarina 2025, atuaram em momentos culturais no Palácio do Governo, no Salão Nobre dos Paços do Concelho de São Salvador do Mundo, na Universidade de Santiago, onde Liliane estuda, e em outros espaços. Para a jovem vocalista, o festival do Tarrafal representa mais do que um palco. "Classe tem de manter unida. Estar neste convívio é experienciar o sentimento de pertença à família de batucadeiras", resume, com a simplicidade de quem sente antes de explicar.
Conhecida por Liziane, tem 20 anos, embora o rosto, a leveza dos gestos e o sorriso fácil a façam parecer mais nova. É estudante universitária, frequenta o 3º ano da licenciatura em Gestão de Empresas. No grupo, é voz principal e também compositora, acrescentando novas palavras a esta tradição secular.
O batuku acompanha-a desde a infância. Cresceu no seio do batuku, vendo a mãe e uma tia integrarem um grupo tradicional. Ainda criança, subia ao palco para "dá ku tornu", esse movimento de quadril sensual e rítmico, coração do batuku, em que o corpo gira e sem o pé sair do lugar, muitas vezes com um pano atado à cintura.
Com a emigração de alguns elementos do grupo, foi convidada, ainda menor, a assumir o papel de tornista, a dançarina central que executa o tornu. Recorda que, no início, dava tornu apenas de um lado. Com o tempo, aprendeu por completo e hoje diz, entre risos: "Agora consigo dá ku tornu a noite até amanhecer, e não canso". A paixão cresceu antes mesmo de o corpo acompanhar o ritmo.
Quando fala do batuku, a voz abranda, mas a certeza permanece. "Não sei explicar por que gosto de batuku. Só sei que gosto desde criancinha. E uma certeza: o batuku vai acompanhar-me pelo resto da vida." Diz-se assim, com a mesma naturalidade com que o conhecimento e a tradição passam de geração em geração, como uma herança que se vive.
Décio Barros





