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    Carnaval do Mindelo, uma das mais importantes manifestações culturais de Cabo Verde

    Mindelo, uma cidade que é um destino. 10 lugares para descobrir São Vicente e muitas razões para voltar

    27 de agosto de 2026

     

     

    Quando se fala em lugares a visitar em Cabo Verde, há uma cidade que entra inevitavelmente na conversa: Mindelo.

    E, neste caso, não se trata apenas de recomendar um monumento, uma praia ou um miradouro. É a própria cidade que merece ser visitada. Mindelo, no seu todo, é um destino.


    Há cidades bonitas pelos seus monumentos. Outras pela natureza que as rodeia. Mindelo parece ter recebido um pouco de tudo. As partes complementam-se. A baía, as montanhas, as ruas, a arquitectura, as fachadas coloridas, o movimento das pessoas, a música que se ouve ao fundo e aquela forma muito própria de viver a cidade criam um conjunto difícil de separar.


    Situado à volta de uma baía em forma de semicírculo, Mindelo dá, visto do alto, a sensação de ocupar uma enorme caldeira vulcânica aberta para o mar.


    A própria formação geológica de São Vicente já oferece à cidade um cenário privilegiado. Mas foi a ocupação humana que transformou essa paisagem num dos mais interessantes espaços urbanos de Cabo Verde.


    A cidade cresceu à volta da Baía do Porto Grande, onde foi construído um dos primeiros grandes portos de águas profundas do arquipélago. No século XIX, Mindelo ganhou importância internacional quando os britânicos instalaram, em 1838, um depósito de carvão para abastecer os navios a vapor que cruzavam o Atlântico. A partir daí, o Porto Grande tornou-se um importante ponto de escala e reabastecimento das rotas transatlânticas. Vieram navios, marinheiros, comerciantes, trabalhadores, ideias, línguas, músicas e influências de diferentes partes do mundo. A paisagem natural encontrou-se com a História e, dessa mistura, nasceu muito do Mindelo que hoje conhecemos: cosmopolita, culturalmente intenso e arquitetonicamente singular.


    A longa Avenida Marginal atravessa grande parte da cidade e estabelece um diálogo permanente com o mar. Ao fim da tarde, o espetáculo ganha outra dimensão. Mindelo está virado para o pôr do sol. À frente, o Atlântico. Ao fundo, o Monte Cara. E, na linha do horizonte, as montanhas imponentes de Santo Antão. Até porque são as ilhas com menor distância entre si, no arquipélago, separados por 16 quilómetros de mar.


    O Monte Cara, uma das 7 Maravilhas Naturais de Cabo Verde, parece mudar de personalidade ao longo do dia. Mas é ao pôr do sol que ganha outra vida. A luz transforma a montanha numa silhueta quase teatral e dá à cidade uma aura difícil de explicar.


    Talvez seja por isso que Mindelo não se visita apenas. Mindelo sente-se. Esta frase é cliché, mas foi comprovado quando há alguns anos fui passar a semana do carnaval, na companhia de alguém que visitava a ilha pela primeira vez. Passou a ter outra ideia, pela positiva, do Carnaval do Mindelo e da toda a ilha.


    Grande parte da vida de São Vicente concentra-se no Mindelo. A cidade reúne a esmagadora maioria da população da ilha e é o seu principal centro económico, cultural e social. Mas São Vicente não termina nas ruas de Mindelo. 

     

    Há São Pedro, com a sua tradição piscatória e a proximidade ao aeroporto internacional Cesária Évora. Há Salamansa, Calhau e Baía das Gatas, palco do mais antigo e emblemático festival internacional de música do país. Há montanhas, baías, estradas e pequenas localidades que ajudam a explicar uma ilha pequena em território, mas enorme em personalidade.


    E depois há os acontecimentos.

     

    Mindelo tem eventos que marcam o ritmo da cidade e da ilha. O maior deles é, naturalmente, o Carnaval do Mindelo, uma das mais importantes manifestações culturais de Cabo Verde. Durante semanas, a cidade muda de ritmo. A economia ganha outro fôlego. Hotéis, restaurantes, ateliers, músicos, costureiras, artistas, técnicos, produtores e dezenas de outros profissionais entram na engrenagem de uma das maiores indústrias culturais do país.


    O centro da cidade, a popular Morada, transforma-se num grande sambódromo a céu aberto. A arquitectura e o traçado urbano parecem ter sido feitos para receber os desfiles. A criatividade dos grupos encontra-se com o colorido das fachadas e, durante algumas horas, Mindelo transforma-se num espetáculo em movimento.


    Mas a agenda não termina no Carnaval. Há o Mindelact, o conceituado festival de teatro, em Novembro; o Festival Internacional de Música da Baía das Gatas, em Agosto; o Kavala Fresk Feastival, em Julho; e a Passagem de Ano na Rua de Lisboa, em Dezembro, entre muitos outros momentos que fazem da cidade um lugar permanentemente ligado à cultura.


    No entanto, a maior riqueza de Mindelo seja mais difícil de colocar num mapa. É a morabeza das pessoas.


    Porque é possível visitar uma cidade, conhecer os seus monumentos, fotografar as suas paisagens e ainda assim não perceber verdadeiramente o lugar. Com Mindelo, é preciso ficar. Sentar. Caminhar sem pressa. Ouvir. Conversar. É preciso ir a ilha de São Vicente, para senti-lo na sua plenitude.


    A cidade do Mindelo, em si, fascina-me. Mas, sempre que volto a São Vicente, há lugares que procuro revisitar, e outros que descubro pelo caminho.

     

    Aqui ficam 10 experiências e lugares que me encantam em São Vicente.

     

    1. Laginha: a praia que parece ter filtro do Instagram
    A Laginha é uma praia urbana e, provavelmente, a mais popular da ilha. É um dos grandes pontos de encontro da cidade.
    O primeiro impacto é quase sempre visual.
    O tom azul-turquesa da água parece, por vezes, demasiado perfeito para ser real. Parece que alguém aplicou um filtro de Instagram sobre o mar. Mas não é filtro. É Laginha.
    A praia recebe quem procura um mergulho, uma caminhada, um momento de descanso ou simplesmente uma esplanada ao fim da tarde. É frequentada por moradores, visitantes, emigrantes que regressam de férias e turistas que, muitas vezes, acabam por descobrir ali uma das imagens mais icónicas de São Vicente.
    Ao pôr do sol, a vista para o Monte Cara e o Ilhéu dos Pássaros transformam o cenário. E é aí que se percebe porque é que Laginha não é apenas uma praia. É um dos lugares onde Mindelo se encontra consigo próprio.

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    Praia da Laginha


    2. Caravela: uma paragem obrigatória junto à Laginha
    Já que estamos na Laginha, vale a pena continuar até à Esplanada Caravela.
    É daqueles lugares que já fazem parte da geografia afectiva de São Vicente.
    Tem a sua clientela regular, os seus habitués e também os emigrantes que regressam à ilha e procuram reencontrar sabores, pessoas e memórias.
    O ritual pode ser simples: sentar, de preferência voltado para a praia e para o Monte Cara, pedir uma bebida fresca e deixar o tempo passar.
    Um mojito ao fim da tarde. Depois, talvez um bitoque à moda da casa.
    Mas a oferta gastronómica é variada e o espaço tem diferentes ambientes. Em determinados dias há música tradicional ao vivo. Aos fins-d-esemana, a parte inferior transforma-se num espaço de dança. E, numa época em que as discotecas tradicionais parecem cada vez mais raras nos centros urbanos cabo-verdianos, esse detalhe também tem o seu valor.

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    3. Monte Gute: onde a cidade se revela por inteiro
    Se tivesse de escolher um lugar para contemplar Mindelo, o Miradouro do Monte Gute estaria, sem dúvida, entre os primeiros.
    É uma das minhas vistas preferidas da cidade.
    Lá de cima, Mindelo revela-se quase por inteiro. A malha urbana, a Avenida Marginal, a Baía do Porto Grande, os barcos, o Monte Cara e, mais além, Santo Antão.
    A vista é especialmente generosa ao fim da tarde.
    Para quem é apaixonado pela magia do pôr do sol, o Miradouro de Gute é quase um paraíso. O céu muda de cor, as luzes da cidade começam a aparecer e a paisagem transforma-se lentamente.
    Há silhuetas. Há barcos. Há montanhas.
    E há aquela sensação curiosa de que, mesmo depois de várias visitas, se está a ver tudo pela primeira vez.

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    Vista da cidade do Mindelo, a partir de Miradouro de Gute


    4. Monte Verde: São Vicente vista do seu ponto mais alto
    O Monte Verde é outro daqueles lugares que ajuda a perceber a geografia da ilha.
    Situado a cerca de 744 metros de altitude, é o ponto mais alto de São Vicente e oferece uma vista panorâmica extraordinária. À 15 quilómetros do centro da cidade.
    De lá é possível observar Mindelo, a Baía do Porto Grande, Baía das Gatas, ilha de Santo Antão, e em dias de boa visibilidade, as ilhas vizinhas de Santa Luzia e São Nicolau.

    E há outro detalhe que torna a experiência particularmente acessível: é possível chegar ao topo de carro. Aliás é o único ponto mais alto das 10 ilhas de Cabo Verde com uma estrada para veículos até ao topo.
    O miradouro está integrado no Parque Natural de Monte Verde e, numa ilha marcada por paisagens secas e montanhosas, a vista oferece uma perspectiva completamente diferente de São Vicente.
    Da última vez que lá estive, antes da pandemia, havia uma Casa de Chá, espero que ainda esteja a funcionar.
    Uma chávena de chá na mão e aquela vista à frente.
    Às vezes, não é preciso muito mais para ser feliz.

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    Vista da cidade do Mindelo, a partir do Monte Verde


    5. Baía das Gatas e o prazer de regressar pela estrada do Norte
    Do alto do Monte Verde é possível observar toda a zona da Baía das Gatas. É quase um convite.
    Depois de olhar para a paisagem a partir dos 744 metros de altitude, apetece descer até ao nível do mar.
    A Baía das Gatas é uma das zonas balneares mais conhecidas de São Vicente. A sua configuração natural cria uma espécie de grande piscina protegida por formações rochosas vulcânicas.
    Águas geralmente tranquilas, transparentes e pouco profundas fazem do local um convite ao banho.
    Mas Baía das Gatas é também música.
    É ali que acontece o mais emblemático e histórico festival internacional de música de Cabo Verde, um evento que, todos os anos, transforma aquela pequena localidade numa enorme sala de concertos a céu aberto.
    O banho, a paisagem e a viagem pela estrada do Norte de Baía, sentido Calhau, fazem parte da experiência. Localizada na costa leste da ilha de São Vicente, em Cabo Verde, é uma rota cénica entre montanha e o mar, com cerca de 7,1 quilómetros de extensão e uma sensação incrível e um deleite para o olhar. O caminho também pode ser uma atracção.

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    A zona balnear de Baía das Gatas é, basicamente, um enorme piscina natural
     

    6. Nadar com tartarugas em São Pedro
    São Pedro é uma aldeia piscatória situada junto ao aeroporto internacional Cesária Évora.
    Nos últimos anos, os pescadores locais encontraram uma forma criativa de transformar a presença das tartarugas numa experiência turística. Em Cabo Verde é comum o contato com o animal na altura da desova nas praias, mas a interação no mar aberto, como atividade turistica é recente.
    A algumas dezenas de metros da costa, pequenos botes levam visitantes ao encontro destes animais marinhos. O som dos motores e a alimentação atraem as tartarugas para junto das embarcações.
    E é possível entrar na água e nadar perto delas.
    É uma experiência extraordinária.
    Já a fizemos várias vezes e a sensação continua a ser especial.
    Naturalmente, trata-se de uma actividade que deve ser feita com respeito pelos animais e pelo seu habitat. As tartarugas são uma espécie protegida em Cabo Verde e a crescente valorização da sua preservação tem contribuído para mudar a relação das comunidades com estes animais.
    Em São Pedro, o turismo criou uma nova oportunidade económica.
    Uma relação que, quando bem gerida, pode beneficiar tanto a comunidade como a conservação da espécie.

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    Em São Pedro, o passeio de bote até a zona de tartarugas custa 1500 escudos por pessoa


    7. Um gelado do Cremositos e o espectáculo do fim de tarde
    Há experiências turísticas que não precisam de grandes produções.
    Às vezes, basta um bom gelado e um banco com vista para o mar.
    O Cremositos, localizado no centro da cidade, junto à Rua Pedonal, é uma dessas paragens obrigatórias para quem gosta de gelado.
    Na minha opinião, continua a ser um dos melhores que já provei em Cabo Verde.
    Depois do gelado, basta sentar na Praça Nhô Roque, junto à Marginal. E olhar.
    Ao fim da tarde, o horizonte ganha tons de laranja. O Monte Cara transforma-se numa silhueta escura. Ao fundo, aparecem as montanhas de Santo Antão.
    Em primeiro plano, passa a cidade.
    Pessoas a caminhar. Autocarros coloridos. Bicicletas. Conversas. Movimento.
    Mindelo talvez seja uma das cidades cabo-verdianas onde mais se vê a bicicleta como meio de transporte no centro urbano.
    Mais à frente, no plano intermédio, os iates ancorados na marina completam o cenário.
    A vista, o gelado e uma boa companhia.
    Às vezes, vale mesmo milhões.

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    Avenida Marginal


    8. Um triângulo cultural: CNAD, Núcleo Cesária Évora e Museu do Mar
    Há uma forma particularmente interessante de conhecer Mindelo: caminhar entre os seus espaços culturais.
    O percurso entre o Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design (CNAD), o Núcleo Museológico Cesária Évora e o Museu do Mar pode transformar-se numa verdadeira viagem pela cidade.
    Os três espaços ficam relativamente próximos (hum ah, ok, menos de um quilómetro) e o percurso entre eles permite conhecer ruas, praças, edifícios, pessoas e diferentes camadas da história mindelense.
    O CNAD, localizado na Praça Amílcar Cabral, a conhecida Praça Nova, é um dos grandes marcos culturais e arquitetónicos contemporâneos de Cabo Verde.
    O edifício impressiona logo por fora. A sua pele exterior, construída com milhares de tampas de bidões metálicos pintadas à mão, é uma referência visual forte e dialoga com um objecto profundamente presente na cultura material e na emigração cabo-verdiana.
    Mas é por dentro que começa a viagem.
    As salas, exposições e diferentes propostas artísticas proporcionam uma imersão na criatividade cabo-verdiana.
    Do CNAD, vale a pena continuar a caminhada pela cidade.
    Passar pela Praça Nova, seguir pela Avenida Baltazar Lopes da Silva (antigo Rua Machado), observar o Palácio do Povo, Rua Lisboa e continuar até ao Núcleo Museológico Cesária Évora, instalado na Rua Guerra Mendes, nº 25.
    Ali, o visitante encontra objectos pessoais, indumentárias, fotografias, vídeos e elementos ligados à carreira da mulher que levou a música e o nome de Cabo Verde aos quatro cantos do mundo.
    Cesária continua a ser uma das grandes portas de entrada de São Vicente para o mundo.
    Depois, o percurso pode seguir até ao Museu do Mar, instalado no edifício inspirado na Torre de Belém, junto à Rua da Praia.
    O museu conta diferentes histórias da relação de São Vicente e de Cabo Verde com o mar: as profissões marítimas, a história da ilha como ponto de abastecimento de carvão, a biodiversidade marinha e o património arqueológico subaquático.
    E há um bónus.
    Do topo do edifício, é possível contemplar uma bela vista sobre a Avenida Marginal e a Baía do Porto Grande.
    Lá em baixo, o movimento do mercado de peixe, das pessoas e dos pequenos negócios lembra-nos que o mar, em Mindelo, nunca é apenas uma paisagem. É também trabalho, sobrevivência e cultura.

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    Edificio da CNAD - Centro Nacional de Artesanato e Design


    9. Centro Cultural do Mindelo: onde a cidade respira arte
    O Centro Cultural do Mindelo merece uma visita sem pressas.
    Está instalado no edifício histórico da antiga Alfândega do Mindelo, construído no século XIX e posteriormente recuperado para fins culturais.
    Onde antes entravam mercadorias vindas do Porto Grande, hoje entram ideias, sons, imagens e diferentes expressões artísticas.
    O edifício, por si só, já justifica a visita.
    Mas o melhor é entrar sem saber exactamente o que se vai encontrar.
    Pode haver uma exposição de fotografia. Um ensaio de teatro. Uma apresentação musical. Um livro para descobrir. Ou simplesmente alguém sentado ao piano no pátio.
    Foi precisamente isso que nos aconteceu numa das últimas visitas.
    Entrámos sem pressa e encontramos uma exposição de fotografia. Mais à frente, estava a jovem cantora Emy Benrós, sentada ao piano, a deixar uma melodia ocupar o espaço.
    Houve ainda tempo para uma pequena conversa.
    Estava num intervalo das aulas, ainda com o uniforme da escola secundária, e tinha aproveitado para passar pelo Centro Cultural.
    Essa é, talvez, uma das coisas mais interessantes do espaço.
    Nunca se sabe muito bem o que se vai encontrar.
    E isso é bom.
    O Centro Cultural do Mindelo tem uma programação regular e continua a afirmar-se como um dos principais espaços de referência de uma cidade que respira cultura.

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    Edificio da CCM - Centro Cultural do Mindelo


    10. A noite, a música e a arte de conviver
    Por fim, uma viagem por Mindelo não estaria completa sem falar dos lugares onde se vive a noite. Não se trata de escolher apenas um. Nautilus, Taverna, Jazzy Bird, Bombu Mininu, Metalo e Marina Mindelo Club – Floating Bar & Bistro são espaços diferentes, mas têm algo em comum: representam aquela cultura de convivência que parece fazer parte do ADN da cidade.
    O Bombu Mininu é mais do que um espaço cultural. É também um lugar para estar. Para conversar. Para ouvir música.
    A decoração vintage, os objectos, o ambiente e a programação criam uma atmosfera muito própria.
    Na Rua Baltazar Lopes da Silva, o Jazzy Bird e o Metalo, separados por poucos metros, ajudam a animar a noite mindelense.
    No Jazzy Bird, a esplanada ganha vida rapidamente. Entre as 21 e as 22 horas, nim estalar dos dedos acontece a mágica, o passeio começa a encher-se de pessoas. Há música tradicional, músicos convidados e aquela sensação de que, em Mindelo, uma simples noite pode transformar-se num concerto.
    O Metalo tem outra atmosfera. Funciona num espaço residencial com arquitetura colonial e um grande quintal a céu aberto onde a música ocupa um lugar central.
    Talentos consagrados e jovens artistas passam por ali.
    A Taverna, na Rua Pedonal, e o Nautilus, junto ao Centro Cultural, também combinam gastronomia e programação musical.
    O Nautilus ocupa um espaço particularmente interessante, ligado ao antigo Clube Náutico. O ambiente é rústico e marítimo e até o palco faz parte da paisagem naval, um bote de pesca artesanal.
    Há o Marina Mindelo Club – Floating Bar & Bistro.
    Música ao vivo, DJs, cocktails e uma localização privilegiada, na marina, sobre as águas calmas da Baía do Porto Grande.
    Um cocktail ao pôr do sol, visto dali, é uma experiência difícil de recusar.
    Outro espaço cultural que merece uma visita é a Livraria Galeria Nhô Djunga, junto à Praça Nova. À noite, atravessar a sua porta dá quase a sensação de passar por um portal para outra dimensão. Lá fora está a cidade; lá dentro, o ambiente muda. A aura do espaço é alegre, nostálgica e acolhedora, convidando a ficar, conversar e descobrir. E quando há música ao vivo, a experiência ganha outra dimensão. Vive-se aquele good vibes mindelense.

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    Esplanada do Jazzy Bird

     

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    António Tavares, responsável do Espaço Bombu Meninu

     

    Há também um lugar, ou melhor, vários pequenos lugares, que já não figuram no mapa cultural de Mindelo, mas que continuam vivos na memória de quem os frequentou. E lembro-me deles com alguma nostalgia. Eram cerca de cinco pubs, bares ou botecos, chamem-lhes o que quiserem, situados em frente à praia da Laginha. Ali pulsavam momentos genuínos, feitos de música ao vivo, encontros inesperados e verdadeiras noites cabo-verdianas.
    Lembro-me, por exemplo, de uma noite de rabecada com o músico Zé Cakai. Um tónico para a alma. Mas havia um outro espaço que era, o meu preferido. Ali, os ritmos do reggae dominavam a noite, tocados por uma banda ao vivo.
    Quando os músicos faziam uma pausa e o som finalmente descansava, o silêncio durava pouco. Logo chegava música de um dos espaços vizinhos. Era uma espécie de continuidade sonora, como se toda aquela zona da Laginha funcionasse como um único palco.


    Infelizmente, ou talvez inevitavelmente, dependendo do ponto de vista, chegou o chamado desenvolvimento. Os espaços desapareceram, foram demolidos, e no local nasceu o grande hotel Four Points by Sheraton São Vicente Resort. A cidade ganhou um novo empreendimento turístico. Mas perdeu também um pequeno pedaço da sua geografia cultural. É o preço, ou uma das consequências, das cidades que crescem e se transformam. Alguns lugares desaparecem do mapa. Mas não desaparecem necessariamente da memória.

     

    São Vicente não cabe numa lista de 10
    A verdade é que São Vicente não se resume a estes dez lugares.
    A ilha tem muito mais para descobrir. E esse um dos seus maiores encantos.

     

    A cada visita, tento procurar novos espaços, novas histórias e novas pessoas. E há sempre alguma coisa que aparece pelo caminho. Lembro-me, por exemplo, de passar por um lugar fantástico na zona de Alto Solarino: o Abyssinia. Uma antiga loja tradicional transformada num espaço cultural e familiar, sem perder a sua essência. Um dos membros da família é o jovem e talentoso músico Luís Firmino, cujas as suas dezenas de composições também ajudam a dar vida ao espaço. Aos sábados, há ainda cachupa...saborosa,  diga-se de passagem. E isso, em Cabo Verde, também é um bom argumento para uma visita.

     

    São Vicente é uma ilha que continua a reinventar-se. E, nos últimos tempos, ganhou até uma nova estrela de dimensão internacional: Vozinha. O guarda-redes da Seleção Nacional de Futebol, natural do Mindelo, ganhou projeção mundial depois da sua participação no Mundial de 2026. A dimensão alcançada nas redes sociais e a atenção internacional transformaram o jogador num dos novos rostos de Cabo Verde.
    Mindelo já começou a prestar-lhe homenagem.
    Murais, referências e manifestações de orgulho mostram que a cidade sabe reconhecer os seus. Se Cesária Évora continua a ser uma das grandes razões que levam visitantes a São Vicente, talvez seja cedo para dizer até onde poderá chegar esta nova marca.

     

    E a Praça Dom Luís merece igualmente uma visita, sobretudo pelos murais que homenageiam duas grandes figuras da cultura e do desporto cabo-verdianos: Cesária Évora e Vozinha.

     

    O mural dedicado à diva dos pés descalços, da autoria do conceituado artista português Vhils [Vhils no Instagram], é uma imponente obra de 10 metros de altura, criada em 2019. Esculpida à força de berbequim, a obra foi concluída em apenas três dias e tornou-se um dos pontos de referência da zona. Na altura, Vhils também fez uma obra semelhante com a figura de Amílcar Cabral, no bairro de Achada Grande Frente, na cidade da Praia.

     

    Também na área circundante da praça, surgiu, em julho deste ano, uma homenagem a Vozinha, depois da participação histórica de Cabo Verde no Mundial. O guarda-redes foi eternizado num mural com 12 metros de altura e 10 metros de comprimento, assinado pelo multifacetado artista plástico João "Boss" Brito [artista este no nosso podcast - CVCultural Podcast].

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    Praça Dom Luiz, "Cesária Évora", obra do artista Vhils

     

    Mas uma coisa é certa: Mindelo gosta de transformar os seus filhos em histórias. E gosta de contar essas histórias ao mundo.

     

    Mindelo não é apenas um lugar para visitar.
    É uma cidade para caminhar sem pressa.
    Para sentar numa esplanada.
    Para ouvir uma música que vem de uma janela ou de um bar.
    Para olhar o Monte Cara ao fim da tarde.
    Para descobrir uma rua.
    Para encontrar alguém.
    Para voltar.
    Mindelo e São Vicente nos deixam com vontade de regressar.

     


    Crónica Décio Barros