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    Recordando Vadu e a sua paixão pela ilha que lhe tomou o corpo

    12 de janeiro de 2026

    Djuzé sai di kaza inda ele  ka volta não

    Ma dja fazi 4 dia ki Djuzê sai di kaza panha boti ba mar

     nha guênti inda el ka volta

     

    Quando se ouve Vadú a cantar “Piskador” em tons marcadamente melancólicos  dá-nos a sensação de que Vadu estaria a cantar o próprio destino.

     

    O artista morreu precisamente no mar. Ele havia passado o Natal e fim-do-ano 2009 na ilha de Santo Antão, ia ser o cabeça de cartaz de um festival de música integrado nas actividades alusivas à festa do Município da Ribeira Grande.

    Natural de Santiago, Vadu tinha, entretanto, um carinho especial pela “ilha das montanhas”. E cantou-a

    Ribeira Grande 

    Es mar, 

    Es bentu, 

    Es rótxa, 

    Es groguin ta fze-m sabi


    As rochas e o mar que inspiraram Vadú, que faze-l sabi, acabariam por ser os mesmos que o ceifariam a vida.

     

    Conforme eu escrevia  há 16 anos numa crónica para da Rádio de Cabo Verde, quis o destino que o menino do Bairro Craveiro Lopes fosse perder a vida na terra que aos poucos ia adoptando, uma terra que, para lá chegar, teve ki salta tudu mar e rotcha tamanhu, para depois concluir: sabura kin pasa, ka ta da pa konta... kantu um dá rinkada pa’m bai,  um ka rapendi nau.


    Na noite de 12 de Janeiro de 2010, Vadu partia da Ponta do Sol rumo à Povoação, à boleia num camião conduzido por Dai, um jovem de Salamansa, São Vicente. Os dois cairam no mar, na Ribeira dos Órgãos. Dias depois, os corpos das duas vítimas eram encontrados a flutuar no mar entre Povoação e Ponta do Sol.

     

    Dai foi sepultado na Ponta do Sol. Já o corpo de Vadu seguiu para o cemitério do Alto de São Miguel, o tal cemitério que fica nas alturas. A propósito, alguém disse, certa vez, que Ribeira Grande deve ser o único lugar no mundo onde os vivos carregam os mortos para céu.

     

    A ultima morada de Vadu fica nas alturas! Num lugar alto, com vista para o mar e para as rochas, rotxa tamanhu, enfatiza a sua musica. E Vadu queria morar num lugar alto la na ilha... aliás, já teria solicitado à Câmara Municipal da Ribeira Grande um terreno para fazer uma casinha algures num região nas alturas. Estranhas coincidências!

     

    Santo Antão soube acolher Vadu. Talvez, lá onde esteja, o artista nunca se venha a arrepender de ter escolhido a ilha como sua segunda casa. Talvez!

     

    Vadu deixou este mundo faz 16 anos nesta segunda-feira, 12 de janeiro.

     

    Crónica de Benvindo Neves