Há viagens que se medem em quilómetros. Outras medem-se pelo ritmo da vida. A ilha do Maio está apenas a pouco mais de uma hora de barco da cidade da Praia. A passagem de ida e volta custa cerca de três mil escudos. É, provavelmente, uma das viagens mais baratas que um cabo-verdiano pode fazer para descobrir um mundo completamente diferente daquele que deixa para trás.
Partimos numa sexta-feira, às 17 horas. O regresso estava marcado para domingo à noite. Eram apenas dois dias. Mas, no Maio, dois dias parecem uma semana.
O barco levava também músicos a caminho das festas de São Pedro, na localidade de Pedro Vaz, no norte da ilha. Entre os passageiros reconheciam-se elementos dos Ferro Gaita e o cantor Marino, nomes bem conhecidos do cartaz cultural daquela romaria.
Fui o último a entrar no barco. Sobrou apenas um lugar. Sentei ao lado de um emigrante que viveu largos anos nos Estados Unidos e que agora regressava definitivamente a Cabo Verde. Tinha casa na Praia, mas, como eu, aproveitava o fim de semana para respirar o Maio.
As melhores viagens são feitas de encontros improváveis. Falámos da vida, da emigração, das saudades, das mudanças do país e dos sonhos que sobrevivem ao tempo. Quando demos conta, o barco já se aproximava da ilha.
A chegada coincidiu com um dos maiores espetáculos que a cidade de Porto Inglês oferece todos os dias: o pôr do sol. Porto Inglês é tão pacata que as gentes da ilha continua a chama-lo de "vila".
A cidade está virada para o mar e para o pôr-do-sol. O sol desaparece lentamente atrás da ilha de Santiago e o céu transforma-se numa pintura de tons dourados, laranja e vermelho.

É impossível assistir a este momento sem recordar Betú e a sua "Notícia", eternizada na voz de Ildo Lobo. A célebre "laranja" que cai atrás de Santiago deixa de ser apenas uma metáfora e passa a ser uma imagem real diante dos nossos olhos.
Instalámo-nos na Casa Sousa Pensão, mesmo em frente ao mar. Um alojamento simples, confortável e acessível. O preço varia entre 2500$00 a 3000$00. Curiosamente, era ali que também estavam hospedados vários artistas que atuariam nas festas. Ao lado funciona o restaurante Terra Terra. No Maio, escolher peixe não é propriamente uma escolha. É quase uma obrigação. Cada refeição traz aquela sensação de que o peixe acabou de sair dos botes que regressam à praia poucas horas antes.
Ainda antes da noite cair por completo, ficámos simplesmente sentados a olhar para o horizonte. No Maio ninguém parece ter pressa de terminar um pôr do sol.
Mais tarde, a ilha vestiu-se de azul.
Jogava a Seleção Nacional frente à Arábia Saudita e, pelas ruas de Porto Inglês, bandeiras e camisolas dos Tubarões Azuis decoravam casas, varandas e cafés. Descobrimos depois que a Câmara Municipal promovia um concurso para distinguir a rua mais bonita durante o Mundial.
Seguimos até ao Fan Zone instalado no Espaço Tranquilidade. Tal como em qualquer lugar onde exista um cabo-verdiano, ali também se sofria, vibrava e sonhava em conjunto. O empate sem golos não retirou entusiasmo à festa, pelo contrário teve a sabor à vitória, por garantiu a passagem da fase de grupos, logo na estreia absoluta dos Tubarões Azuis, como é conhecido a Seleção Nacional.
No Maio, o vento sopra devagar. As conversas demoram. Os relógios parecem perder importância.
No sábado seguimos para Pedro Vaz, onde São Pedro encerrava o ciclo das festas juninas.
Enquanto a missa decorria na igreja, dezenas de mulheres preparavam, em enormes panelas, o almoço comunitário. Feijão-pedra, congo, xerém e carne de cabra cozinhavam lentamente, alimentando um aroma que já fazia parte da festa.
As panelas estavam alinhadas quase como uma equipa de futebol pronta para entrar em campo. Um irreverente 3x4x3, totalmente ofensivo.
A viagem até Pedro Vaz teve um privilégio inesperado: fizemo-la ao lado dos Ferro Gaita.
Percebe-se facilmente porque continuam a ser um dos grupos mais queridos de Cabo Verde. A simplicidade com que conversam, brincam e observam o quotidiano é exatamente a mesma que depois transportam para as suas músicas. Continuam ligados às pessoas comuns, às histórias dos bairros, das ruas e das ilhas. Talvez seja esse o segredo de três décadas de sucesso.

Quando a missa terminou, a aldeia transformou-se num enorme ponto de encontro. Nas festas de romaria, a saída da igreja vale tanto como a própria celebração religiosa. Há abraços adiados durante meses, famílias que se reencontram, fotografias e muitas conversas.
Depois chega o almoço. Farto. Partilhado. Sem pressa.
Ao cair da tarde, Pedro Vaz ganhou outra banda sonora. Primeiro a rabecada da Banda Oasis. Depois Marino, Nhanha de Filipa e animação de DJ. Já perto da meia-noite, bastaram os primeiros acordes da gaita de Janilson Carvalho para o público correr em direção ao palco. Era o Cotxi Pó, o ritmo quente e frenético do funaná.
Os Ferro Gaita vieram a seguir e voltaram a "casa". São uma das bandas mais acarinhadas na ilha do Maio. Já perderam a conta às vezes que ali atuaram. Passaram por praticamente todos os palcos possíveis: festivais, bailes populares nos polivalentes e até palcos improvisados, como o montado este ano em Pedro Vaz.
Durante horas desfilaram clássicos que várias gerações conhecem de memória, misturados com temas do novo álbum, lançado no ano em que a banda celebra 30 anos de carreira.
A festa terminou quando o céu já anunciava um novo dia.
Regressámos a Porto Inglês no mesmo autocarro da banda. Nem o cansaço lhes retirava a boa disposição.
O domingo foi dedicado ao descanso. A praia Bitxi Rotxa a poucos metros do nosso alojamento recebeu-nos com o mesmo ambiente calmo que parece definir toda a ilha.
Ali encontrámos um antigo emigrante da Praia que viveu mais de trinta anos na Suíça. Veio conhecer o Maio por curiosidade. Acabou por ficar. Disse apenas uma frase que resume bem a ilha: o Maio liberta-nos.
Ficámos horas sentados à sombra de uma pequena cabana, olhando o mar, a silhueta de Santiago no horizonte e os cardumes que agitavam a água junto à costa.
Às 20 horas regressámos à Praia. Pouco mais de uma hora depois voltávamos ao trânsito, às buzinas e ao ritmo acelerado da capital.
O Maio ficou para trás. Ou talvez não. Porque há lugares que não nos acompanham apenas nas fotografias. Acompanham-nos na forma como, depois da viagem, passamos a olhar para o tempo.
Cronica DB




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