Há festivais que se medem pelo cartaz. E há outros, mais raros, que se medem pela alma. Em Pedra Badejo, no largo da Praça Katchás, o "1 Concelho 3 Ritmos" continua a provar que pertence, sem hesitação, à segunda categoria.
Neste fim-de-semana, 20, 21 e 22 de março, Santa Cruz voltou a celebrar-se a si própria, ao ritmo do batuku, do funaná e da tabanka, três expressões que não são apenas géneros musicais, mas códigos de identidade profundamente enraizados no quotidiano da região. A Câmara Municipal voltou a assumir a batuta da organização, desta vez com o reforço da produtora Harmonia, elevando ainda mais a já exigente bitola de qualidade do evento.
E se o cartaz impressionava, com nomes como Tcheka, Princezito, Os Tubarões, Ferro Gaita e Meleny Gomes, rapidamente se percebeu que o essencial estava para além dos nomes. Havia ali um ambiente de pertença, quase ritual, num espaço simbolicamente guardado pela estátua de Katchás, filho da terra e uma das figuras maior da música cabo-verdiana. Talvez por isso, tudo parece ganhar outro peso. Até o facto de o acesso ser gratuito soa menos a detalhe e mais a gesto de partilha.
Na sua 14ª edição, o "3 Ritmos", como é carinhosamente tratado no concelho, reafirma uma relação de afecto construída ao longo dos anos. Sente-se na emoção dos artistas da casa, muitos deles a subir a um palco que, em tempos, era apenas um sonho distante.
A viagem começou na sexta-feira, com o batuku a tomar conta do espaço. Apesar da ausência sentida de Princezito, por motivo de luto familiar, o alinhamento manteve-se sólido. Meleny Gomes e Vera (do grupo Voz de Cultura), residentes em Portugal e com assinalável popularidade no YouTube, levaram o público a vibrar e a cantar em uníssono todas as suas letras. Meleny Gomes interpretou o hit "Imigrason" e arrancou momentos de verdadeiro delírio. A dupla de vozes da diáspora, trouxeram um batuku renovado, onde o tradicional dialoga com instrumentos eléctricos, sem perder a essência. Uma fusão que levanta sobrancelhas aos puristas, mas conquista, sem esforço, o público.
E o público, esse, não falha. Em Santa Cruz, o batuku vive-se com intensidade difícil de traduzir. Grupos como 16 Estrelas ou Família 3 Ritmos mostraram que a tradição está longe de se esgotar. Renova-se, sobretudo, nas mãos (e nas ancas) das gerações mais novas, muitas vezes acompanhadas pelas mães e avós, numa espécie de transmissão viva de saber.
No desfile dos grupos pelo palco, um destacou-se pela sua cuidada encenação etnográfica, incorporada na forma como vive e apresenta o batuku: a Kumunidadi Mosinhus d’Interior. Formado por elementos das localidades de Serelho, Rebelo, Matinho e Chã da Silva, no interior de Santa Cruz, o grupo caminha para os 12 anos de existência e convida o público a apreciar o batuku com um olhar mais atento aos detalhes, aos símbolos, a uma autêntica viagem pelo universo tradicional.
O impacto das suas performances tem-nos levado a palcos de relevo. Há cerca de um ano, atuaram na extensão do Kriol Jazz Festival, em Pedra Badejo, e, mais recentemente, integraram a comitiva de Cabo Verde no ECOFEST - Festival de Artes e Cultura da África Ocidental, em Dakar, Senegal.
Pelo palco passaram ainda grupos como Raiz di Tambarina, Fidjus di Kutelu, Fidjus di Simentera, Amoransa, Batukaderas Nha Nácia Gomi e Batucadeiras Nova Chama.
No final do primeiro dos três dias, ficou claro que o batuku continua pujante no município. Multiplicam-se os grupos, muitos deles compostos por adolescentes e crianças, acompanhadas pelas batucadeiras mais velhas, num ciclo de transmissão que replica, com naturalidade, o que aconteceu com as gerações hoje adultas.

O segundo dia do festival, na noite de sábado, foi inteiramente dedicado ao também quente ritmo do funaná.
O grupo Gaita Matxadu, de Pedra Badejo, deu o pontapé de saída com a energia característica da gaita e do ferro, rapidamente correspondida por um público que os conhece bem e que nunca lhes nega entusiasmo.
Rosy Timas, também filha da casa e em destaque nas noites cabo-verdianas nos últimos anos, sobretudo na ilha de Santiago, apresentou um repertório de funaná à altura do que o momento pedia. À vontade em palco, com um sorriso aberto e uma energia que transborda, viu o público retribuir na mesma medida. Fez-se acompanhar por um grupo de jovens músicos talentosos, formando uma banda coesa e segura.
A atuação seguinte trouxe ao palco Vera Lopes, de gaita ao peito, sorriso fácil e uma vontade evidente de soltar os acordes quentes do funaná. Filha do icónico figura do género, Sema Lopi, e residente em França, fez-se acompanhar pela irmã no ferrinho, num momento de grande cumplicidade que encantou o público.

De guitarra ao peito, Heitor Pires foi o nome que se seguiu, mantendo a energia em alta com uma atuação envolvente e alegre. Uma agradável surpresa para quem ainda não o conhecia.
A noite seguia em alta rotação. Nataniel Simas soube tocar no nervo certo. Ao revisitar temas profundamente ligados à memória colectiva de Santa Cruz, elevou o orgulho local e reforçou essa ponte entre passado e presente. Ao interpretar "Tó Martins", tema profundamente enraizado no concelho e eternizado pelos Bulimundo de Katchás. Num registo assumidamente emocional, também revisitou "Dimingu Denxu", outro verdadeiro hino da região. Pelo meio, foi desfiando um repertório de funaná e canções que falam diretamente à alma santiaguense. O músico deixou claro a sua gratidão por cantar "onde tem o seu bico enterrado".
Seguiu-se Loty Rocha, com o seu funaná quente e bem conhecido do público, que acompanhou em coro grande parte das letras. Em palco, assumiu estar a cumprir um sonho ao integrar o cartaz do "3 Ritmos", visivelmente tocado pela forma calorosa como foi recebido em Santa Cruz. Na sua banda, destaque para o jovem Bob Valentino, virtuoso da gaita, e Xibioti, no ferrinho, garantindo a pulsação certa de um concerto vivido com intensidade.
Ao longo destes dois dias, o experiente e talentoso Bife assumiu o papel de mestre de cerimónias, imprimindo ao evento um toque seguro e elegante.
Na linha do tempo do festival, chegava a hora de Tcheka. O artista, natural de Ribeira da Barca e com uma carreira já consolidada a nível internacional, subiu ao palco com palavras de agradecimento, sublinhando que, em 20 anos de percurso, era a sua primeira atuação em público na ilha de Santiago fora da cidade da Praia.
Cabeça de cartaz, fez jus ao estatuto. A solo, o cantor, compositor e guitarrista destilou toda a sua reconhecida qualidade, perante um público atento, que respondeu com demorados aplausos. Foi um privilégio assistir a tamanha qualidade artística num espetáculo com o bónus de acesso gratuito.

Faltavam ainda dois nomes maiores da música cabo-verdiana para encerrar a noite: Os Tubarões e Ferro Gaita. O que se seguiu foi uma autêntica viagem pelas melodias e êxitos que marcam o panorama musical do país há mais de quatro décadas. Tubarões foi, simplesmente, Tubarões. O ritual de entrada, com o baterista Jorge Pimpa a marcar o tempo com as baquetas, funciona quase como um sinal, o público reconhece de imediato o que aí vem. Arlindo Rodrigues, cada vez mais seguro e refinado, continua a dar voz e energia à herança deixada nos tempos de Ildo Lobo. Ninguém fica indiferente à entrega desta banda mítica, que conta agora com o jovem saxofonista Marcos Sousa, natural do Sal, que assumiu o lugar de Totinho, falecido em 2024.
Já os Ferro Gaita confirmam aquilo que o público bem sabe: são, provavelmente, um dos grupos mais talhados para fechar festivais em Santiago. O ritmo frenético do funaná assim o dita. Desde o impacto imediato do álbum de estreia, "Fundu Baxu", até aos dias de hoje, o grupo construiu um percurso sólido, e em 2026 está a celebrar 30 anos de carreira, com cada concerto a assumir contornos de celebração.
À semelhança de Tubarões, também os Ferro Gaita assentaram a atuação nos seus maiores êxitos, com o público em êxtase a corresponder em cada refrão. Ainda sem a presença do carismático Bino, no ferrinho, por motivos de saúde, o grupo não perdeu intensidade. Houve, aliás, momentos de especial brilho. Um deles juntou, no centro do palco dois tocadores de gaita, o Iduino, cuja gaita continua a ser a espinha dorsal do som da banda, e o jovem Bob Valentino. Filho do lendário Bitori, de 88 anos, foi este quem ensinou Iduíno a tocar, que por sua vez teve um papel determinante na formação de Bob. Um encontro de gerações, raro e emocionante, que arrancou aplausos sentidos.
Como se previa, os Ferro Gaita encerraram em alta o segundo dia do festival, confirmando o funaná como um dos grandes motores da festa.

Bob Valentino e Eduíno
Tabanka - 3º dia do festival
Mas o festival guarda sempre um último acto especial. O terceiro e último dia do festival é dedicado à tabanka, uma manifestação cultural secular, oficialmente reconhecida como Património Cultural Imaterial Nacional de Cabo Verde desde 2019.
No domingo, por volta das 12h00, seis grupos de tabanka, provenientes de diferentes regiões da ilha de Santiago, concentraram-se em Salina, na cidade de Pedra Badejo, zona onde estes ritmos, tal como o batuku e o funaná, estão profundamente enraizados. Após o habitual almoço em conjunto, um dos traços mais marcantes da tabanka, onde o convívio e a solidariedade ganham forma, os grupos saíram em desfile pelas ruas do centro da cidade, em direção ao largo da Praça Katchás.
Ali juntaram-se os grupos de tabanka de Salina (Santa Cruz), Tomba Touro, Chã de Tanque, Boca Mato de Palha Carga (Santa Catarina) e Salineiro (Ribeira Grande), além de elementos individuais de grupos da cidade da Praia. O largo encheu-se de gente, arrastada pelo som dos tambores, búzios e cornetas, num ambiente que captou também a atenção de turistas estrangeiros e meios de comunicação internacionais, impressionados com a riqueza dos trajes e a força simbólica da manifestação.
No desfile, destacaram-se os irmãos Dinho e Teresa, da Tabanka de Salina, ambos a viver a tradição com uma alegria contagiante e um sorriso permanente. Dias antes, Teresa havia sido homenageada como Guardiã dos 3 Ritmos, reconhecimento justo para quem irradia energia e dança com naturalidade qualquer género, mas sobretudo o funaná, a tabanka e o batuku. Figura central enquanto dançarina, imprime à tabanka uma dimensão performativa marcada por gestos expressivos e trajes vibrantes.
Já Dinho assume o papel de Rei da tabanka, função que herdou do avô há cerca de 15 anos, também ele Rei da Tabanka de Salina. A sua presença atravessa todo o festival: no dia anterior, integrou a banda de funaná Gaita Matxadu, no ferrinho; e, no primeiro dia, dedicado ao batuku, esteve em palco com o grupo Batucadeiras 3 Ritmos, da sua zona, onde, como faz questão de sublinhar, foi "nascido e criado".
No fim, o Festival 1 Concelho 3 Ritmos afirma-se como um evento de qualidade, vibrante e profundamente envolvente, daqueles que merecem lugar cativo na agenda cultural de quem procura mergulhar na essência da rica tradição cabo-verdiana.
DB





