O concerto de apresentação do segundo álbum de Zul Alves, "Txon", foi daqueles momentos que não se limitam a ouvir-se: sentem-se, literalmente.
Pela primeira vez, a cantora e compositora levou o disco ao palco, num concerto intimista integrado no Ciclo de Concertos de Bolso, no Auditório do Banco Interatlântico, na quinta-feira, 24 de setembro. Num formato acústico, acompanhada por Avu Rodrigues, no violão, e Nené Lopes, na percussão, Zul percorreu as sete faixas que compõem o álbum, numa viagem sonora feita de memórias, afetos, paradoxos da vida e identidade.
A proximidade entre a artista e a plateia ajudou a criar o ambiente. Entre uma canção e outra, surgiam muitos sorrisos, provocados pela leveza das interpretações de Zul, mas também momentos de escuta atenta, como se cada música pedisse ao público para entrar no seu universo e permanecer ali por alguns instantes.
Antes de cada faixa, a cantora fazia uma breve introdução sobre a sua origem, o seu significado ou o lugar que ocupa dentro do álbum. O recurso, que lembra uma certa tradição dos concertos de Mário Lúcio, serviu também para revelar as histórias por detrás das canções e aproximar ainda mais o público da obra.
Foi nesse espaço entre a música e a palavra que Zul falou da sua gratidão pelo trabalho desenvolvido com Mário Lúcio, responsável pela direção e produção musical do álbum. A artista destacou o carinho com que o músico abraçou o projecto e a oportunidade de interpretar composições inéditas suas.
Mário Lúcio mergulhou, durante o processo de produção, na polirritmia e nas possibilidades de fusão de ritmos tradicionais cabo-verdianos, como o batuku, a tabanka e o funaná. Para Zul, esse processo foi também um território de aprendizagem.
"Foi uma autêntica aprendizagem para mim", reconheceu a cantora.
"Txon" é um álbum que não parece pedir uma faixa favorita. É daqueles discos que convidam a carregar no play e deixar a música seguir o seu curso. As sete canções constroem, em conjunto, uma paisagem sonora onde a tradição cabo-verdiana se encontra com uma leitura contemporânea, através de diferentes timbres, ritmos e texturas explorados por Zul Alves.
O repertório apresentado no concerto percorreu todas as sete faixas musicas do álbum: Reveillon Rebelion, Sina de Sina, Prece, Mcorre Mka Pega (que conta com a participação de Mário Lúcio), Dos Mon de Dom, Sunyata e Sem Nada.
Mais do que uma sucessão de canções, "Txon" propõe uma viagem. As músicas evocam a tradição e a memória, mas não permanecem presas ao passado. Na interpretação de Zul, ganham novos contornos e encontram lugar numa sonoridade contemporânea, sem perder a ligação às raízes.
Lançado em fevereiro de 2026 [ouvir no Spotify], o álbum representa também um momento de consolidação artística para a cantora. Sob a direção e produção musical de Mário Lúcio, "Txon" aproxima a ancestralidade da experiência urbana e contemporânea. E também traduz uma artista cada vez mais consciente do seu lugar na música cabo-verdiana.
O próprio título carrega esse sentido. "Txon", numa tradução livre para português, significa "chão". Mas, para Zul, o chão é mais do que aquilo onde se pisa: é raiz, firmeza, germinação e vida.
E foi justamente durante o processo de criação do álbum que a vida ganhou uma nova dimensão. A cantora engravidou, e a maternidade acabou por se cruzar naturalmente com o significado da obra. A fotografia da capa do disco, onde Zul aparece grávida, tornou-se uma extensão visual desse conceito.
A apresentação do álbum aconteceu alguns meses depois do seu lançamento, num momento que a artista considera particularmente especial. A experiência de ser mãe, explica, "faz com que as coisas ganhem outra dimensão: o nosso corpo, o nosso tempo, o nosso medo, a nossa coragem, toda essa mistura ganha novos significados".
A história musical de Zul Alves, nome artístico de Zuleica Carvalho, começou a ganhar uma direção mais definida em 2020, aos 23 anos de idade, quando decidiu assumir um compromisso firme com a música tradicional. Natural da cidade da Praia, na ilha de Santiago, e bióloga de profissão, a artista integra uma nova geração de músicos cabo-verdianos que procura estabelecer pontes entre as raízes e as sonoridades do presente.
O seu trabalho parte de uma busca consciente pela identidade sonora de Cabo Verde, aproximando ritmos ancestrais de linguagens contemporâneas, como o afro-fusion e a world music.
Em 2022, lançou "Buska", o seu álbum de estreia, marcado por uma viagem de autodescoberta e pelo resgate das suas origens musicais.
Se "Buska" foi, em grande medida, um exercício de autoconhecimento, "Txon" parece ser o momento em que Zul Alves se reconhece com maior firmeza no caminho que escolheu. Um disco sobre raízes, mas também sobre movimento. Sobre o chão que sustenta e sobre a vida que, a partir dele, continua a nascer.
+ Zul Alves no CVCultural Podcast
Crónica Décio Barros





